Southland Tales - O Fim do Mundo

SOUTHLAND TALES. (EUA/França, 2006). De Richard Kelly. Com Dwayne “The Rock” Johnson, Sarah Michelle Gellar, Sean William Scott, Justin Timberlake, Mandy Moore. Paramount. Formato de tela: 2.35:1. 145min.


Southland Tales começa com um video caseiro de um churrasco familiar de fim de semana; a camera relaxada, intrusiva a registrar aquele momento cotidiano, na parte de baixo da tela uma data (julho de 2005) e bang. Uma explosão nuclear. Um cogumelo atômico de CGI. Aquele momento é tirado deste estatuto de pequeno snapshot íntimo e historicizado por meio da mais absurda peça artificial de ficção. Todo o movimento do cinema de Richard Kelly está contido ali, naquele cogumelo artificial. Já era assim em Donnie Darko, onde por trás da ficção metafisica e toda a nostalgia anos 80 responsáveis pela popularidade do filme existia uma preocupação e cuidadosa aproximação com o que significava pertencer a uma familia americana de classe média em 1987, seus hábitos, suas preferências, etc., um cuidado em captar um momento histórico que ia muito além de simplesmente construir uma sequência ao som de "The Killing Moon". Southland Tales é isto também, mas numa chave muito mais radical. Um panorama pop/político dos EUA hoje, um exercício em nostalgia do presente, história contemporânea como uma adaptação de HQ.

O que Kelly extraí que nenhum outro filme de ambição similar fizera antes é esta intersecção entre cultura pop e história. Southland Tales é um filme sobre as predileções do partido republicano americano ou a invasão do Iraque, mas é também um filme sobre como passear na web, consumir revistas em quadrinhos ou sátiras politicas televisivas refletem este mesmo universo político. A arte de Kelly é toda voltada para localizar esta intersecção. Sua originalidade e radicalidade, o que torna ele um cineasta essencial, é que fazendo isso ele mapeia como a sociedade de consumo e a história contemporânea se encontram com frescor e naturalidade surpreendentes. Southland Tales incomoda porque é um bug no sistema, peça de resistência pop art que é, recusando-se a dourar a pílula para qualquer um dos seus possíveis públicos consumidores.

Muitos apontaram as similaridades entre o filme e David Lynch, e elas com certeza existem (no uso de Los Angeles ou na aparição de Rebecca Del Rio para cantar o hino americano no clímax, por exemplo), mas é de um dos filmes de cabeceira de Lynch, A Morte num Beijo , de Robert Aldrich, que Kelly toma como ponto de partida. Assim como no filme de Aldrich, Kelly quer descrever o apocalipse através de uma série de elementos pulps e vulgares que o cineasta abraça sem grandes diferenças para os elementos relevantes ao noticiário da época. Ambos os filmes combinam de maneira impressionante noticiário e imaginário, apesar do apocalipse de Aldrich ser mais brutal que aquele permitido pela sensibilidade pop de Kelly. A outra forte influência do filme, bem menos reconhecida, é de Grant Morrison, um dos melhores roteiristas de quadrinhos contemporâneos. O espirito de Morrison pulsa pelo filme, e um pouco do estranhamento que certos setores da crítica sentiram vem desta sensibilidade de quadrinhos de um nicho bem espécifico (o do selo Vertigo da DC Comics), numa produção para um público à primeira vista bem mais amplo.

Kelly recheia seu filme de intervalos: comercias de TV, noticiário da web, números musicais (Justin Timberlake dublando The Killers é desde já um clássico), números de vaudeville de comédiantes vindos do Saturday Night Live . Parte da força do filme vem de como estes elementos todos convergem, interagem e alimentam o comentário do filme. Ele também trabalha muito bem com seus atores de maneira a realizar o movimento inverso ao do filme, partindo do casting icônico em direção a um sentimento genuíno, em especial nas seqüências com Timberlake e com o casal The Rock/Sarah Michelle Gellar. Há uma inevitável irregularidade na proposta de Southland Tales , com alguma situações que de certo não levam a lugar algum (sucessos como John Larroquete e Nora Dunn discutindo política americana, são contrapostos a uma Cheri Oteri ou Jon Lovitz completamente perdidos em cena), mas há sobretudo uma enorme vitalidade, um desejo contagiante de historiar nosso momento a partir de uma linguagem muito cara para o cineasta. Como experiência de uma espécie de cinema totalizante sobre estado das coisas, Southland Tales tem poucos paralelos na arte recente (vale dizer que o filme é bem longe de tal descrição sisuda, pelo contrário, é bem mais engraçado do que a maior parte das críticas sugerem). Talvez se trate de um filme-estorvo, mas recusá-lo é impossível.

Filipe Furtado
 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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