Santogold
Santogold

(Downtown/Atlantic Records)



 

Antes de produzir a estréia da cantora Res e de quebrar tudo no grupo de ska e punk Stiffed, Santi White (nome que está na carteira de identidade de Santogold) trabalhou nos bastidores do gigante Epic, onde ouvia pilhas de CDs em busca de artistas para o elenco da gravadora. A informação pode parecer até dispensável, mas não para uma compositora assumidamente mutante, que se deixa contaminar por tudo e por todos. Em um début que poderia perigosamente soar como balaio de gatos, Santogold surpreende pela sensibilidade como capta as ondas da música contemporânea e interpreta esse curto-circuito de ruídos com uma saraivada de canções radiofônicas. Um álbum desgovernado, talvez, mas nunca impessoal.

Santogold é, acima de tudo, pop. Um trabalho que já nasce marcado pelo faro comercial de uma compositora expert em indústria fonográfica. Antes de chegar às lojas (ou à internet), boa parte das 11 faixas já se esparramava em games e comerciais de tevê. Nada menos que sete produtores foram convidados para tratar as canções - entre eles, Diplo (as semelhanças entre músicas como "Starstruck" e o pop global de M.I.A. não são coincidência) e John Hill, ex-parceiro do Stiffed (é ele o responsável pelos momentos roqueiros "Lights Out" e "I´m a Lady", com ares de Pixies). O golpe não menos que brilhante de Santogold está em transformar um projeto planejado milimetricamente (pop de laboratório, digamos assim) em uma obra capaz de respirar e sangrar. Uma criatura viva.

As veias de Santogold são aquecidas pelas letras confessionais e bem-humoradas de Santi ("I´m a Lady", "Anne" e "L.E.S. Artistes" são alguns bons exemplos de talento para composição) e pela coragem de injetar ousadias formais em um gênero que vai além dos nichos do indie rock e da dance music ocupados, por exemplo, por M.I.A. e Diplo. O público-alvo de Santogold (e, em um álbum tão comercial, o termo cai com precisão) consome música em intervalos de séries de tevê, em estações apelativas de rádio, em boates de playboy, em videogame e elevadores. É essa a trincheira escolhida por uma musa fora dos padrões. Em matéria de pop para multidões, álbuns como Santogold são preciosidades.

Tiago Faria

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

Para comprar os números antigos da versão impressa, clique aqui.