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(Warner)

Quando lembramos que este é um duo formado pelo homem que rimou Beatles com Jay-Z (no ilegal, e hoje essencial, The grey album) e por um soulman especialista em versos auto-destrutivos, parece ainda surpreende que o Gnarls Barkley tenha se adaptado com tanta rapidez ao figurino dos bem sucedidos ídolos do pop. Nascida como um diálogo entre amigos – o produtor Danger Mouse, 30 anos, e o cantor Cee-Lo Green, 33 –, a dupla logo se transformaria em aposta alta do selo independente Downtown Records, distribuído pela toda-poderosa Warner Music. ‘Crazy’, um hit do tamanho do mundo, ficou por nove semanas no topo da parada de sucessos da Inglaterra e engatilhou a carreira do álbum St. Elsewhere (2006) nos Estados Unidos, onde vendeu mais de um milhão de cópias.
Visto de longe, St. Elsewhere parece simples. Danger Mouse traduzia o pop híbrido de ‘Demon days’, do Gorillaz, para o contexto da black music norte-americana. Ficavam por conta de Cee-Lo Green – um rapper formado na marginália do grupo Goodie Mob – o vozeirão e com a poesia paranóica. O mesmo álbum que atualiza a trilha de antigas fitas de faroeste spaghetti (Ennio Morricone serviu de referência para ‘Crazy’), jogou Violent Femmes (a cover de ‘Gone daddy gone’) e hip hop experimental (‘Transformer’) numa mesma máquina de triturar referências. Era um disco esquizofrênico e acelerado, com a aparência de bloco de anotações. Mas importante pela capacidade de apontar uma série de caminhos para o Gnarls Barkley.
Entre tantos brinquedos coloridos na prateleira, é no mínimo frustrante que The odd couple esnobe a maior parte deles. O segundo álbum sente o peso de uma responsabilidade comercial que a dupla carrega com sacrifício . Para evitar passos em falso, Danger Mouse e Cee-Lo acabam amenizando a faceta mais inventiva e espontânea do projeto. Apesar de três ou quatro bons momentos, o clima que paira sobre o disco é do cumprimento de uma obrigação contratual (ainda que, de fato, não tenha sofrido essa pressão). Também pode ser interpretado como uma coleção desesperada de canções criadas sob medida para o público que se aproximou da banda graças ao refrão de ‘Crazy’.
O comodismo e o desleixo generalizado dilui a maior qualidade deste The odd couple: com mais impacto que em St. Elsewhere, as letras de Cee-Lo finalmente garantem foco à agonia de um compositor que, se não tivesse se decidido pelo soul, poderia compor faixas nervosas de hardcore. Os arranjos saltitantes (e inofensivos) de Danger Mouse contrastam com o beco-sem-saída de desabafos como ‘Charity case’ ("até minha sombra me abandona à noite", diz o vocalista), de ‘Surprise’ ("tudo o que nasce acaba morrendo, então não se surpreenda") e no otimismo moderado de ‘A little better’, em que Cee-Lo admite que, com um passado que lembra trechos do filme ‘Trainspotting’, poderia estar "morto há muito tempo".
Transportar para as rádios as confissões sombrias de um homem que "poderia ter sido um assassino" (o aviso está lá, em ‘Would be killer’) não deixa de ser uma missão heróica, mas o Gnarls Barkley retorna sem a disposição de oferecer uma contribuição preciosa à música pop contemporânea: o estímulo ao risco, a guerrilha por novas idéias musicais. É por isso que, se a dupla continuar nessa linha, o irregular St. Elsewhere haverá de ser lembrado como um álbum cada vez mais caloroso e relevante. Por um motivo de ouro: ao contrário deste disco aqui, aquele não devia nada a ninguém.
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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