Medo da Verdade

GONE BABY GONE. (EUA, 2007) De Ben Affleck. Com Casey Affleck, Michelle Monaghan, Amy Ryan, Ed Harris, Morgan Freeman. Formato de tela: 1.85:1 114 min.



A primeira coisa a chamar atenção em Medo da Verdade é seu diretor. Quem, a princípio, levaria a sério um policial dramático realizado por Ben Affleck? Passado o preconceito inicial, percebe-se um filme de diversas camadas, quase todas elas muito bem trabalhadas pelo ator (e agora diretor). Affleck provavelmente se afeiçoou muito ao material original – o romance Gone Baby Gone, de Dennis Lehane – e tentou, ao seu modo, transmitir os pontos mais instigantes da trama principal através de cenas que fugissem do espetaculoso e valorizassem o elemento humano. Já é bastante louvável da parte dele, é preciso reconhecer.

Pois em seu decorrer, Medo da Verdade revela-se um suspense de eficiência, cuja narrativa não rebusca nenhum aspecto. É, ao mesmo tempo, exercício de paixão e humildade da parte de Affleck, que parece ter procurado apenas o essencial para contar a história que lhe fascinara – o desaparecimento de uma garotinha num bairro pobre de Boston, caso investigado por um casal de detetives (Casey Affleck e Michelle Monaghan). Há momentos em que fica patente certa fragilidade do novo diretor, especialmente na cena-chave do filme, quando os personagens se vêem literalmente à beira de um abismo. Quando há um flashback que retorna ao mesmo instante, já no final da produção, fica a impressão de que o momento original foi muito modificado para se encaixar às revelações do enredo dentro da rememoração. As palavras e as intenções falam muito mais do que a imagem é capaz de mostrar, e nisso Medo da Verdade perde alguns pontos na relação até então criada com quem o assiste.

Ficam patentes, de qualquer forma, as inspirações de Affleck, em especial um certo tipo de cinema feito por Clint Eastwood (não por acaso, Eastwood adaptou magnificamente um livro do mesmo Dennis Lehane, Sobre Meninos e Lobos). Medo da Verdade muitas vezes aparenta ser um experimento simples, uma tentativa de Ben Affleck em apagar quaisquer vestígios dos constrangimentos vividos por ele nos últimos anos, dentro e fora das telas. É a forma de retornar a alguma carreira de respeito. Seu potencial está impresso na tela. Injustamente, o filme não foi exibido nos cinemas brasileiros e chega diretamente ao formato DVD. O bom esforço de Affleck merecia melhor prestígio.

Marcelo Miranda

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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