Luz Silenciosa

STELLET LICHT. (México, França, Holanda, 2007) De Carlos Reygadas. Com Cornelio Wall, Miriam Toews, Maria Pankratz. Imovision. Projeção: 2.35:1 127 min.



Carlos Reygadas ficou célebre, num certo meio de filme de arte, por tratar a crueldade do mundo sem meias tintas. Suas imagens traduziam incômodos que muitos diretores evitam, seja o sexo oral num cara gordo (em Batalha no Céu), seja a cabeça cortada de um passarinho ou o sexo entre um homem de meia idade e uma idosa (em Japón). Em apenas dois filmes ganhou um culto tão fácil quanto perigoso, mantendo a mesma maneira de filmar: com muitos planos-seqüências, travellings lentos e enormes, dilatação do tempo e personagens quietos e soturnos, mas com um apetite sexual que pode ser enrustido ou doentio.  

Japón tem a seu favor uma área rural que calhava bem a sua proposta de estranhamento com uma religiosidade latente, e Batalha no Céu se passa na Cidade do México para captar um mal urbano, com rapto, adultério e o estresse habitual de uma cidade grande, mas Reygadas parece aqui falhar em seus intentos, pois o filme não consegue amarrar seus muitos focos em torno do protagonista (não o suficiente para justificar seu peso trágico, pelo menos). O perigo de cair na tentação de ser ainda mais estranho e impactante que na estréia dinamitou as pretensões do autor, fazendo com que a admiração fosse suspensa por muitos críticos, incluindo este que vos escreve. 

Com Luz Silenciosa, Reygadas filma uma comunidade alemã na região de Chihuahua, no norte do México, e retrata como a frieza típica do povo germânico contrasta com um ambiente cheio de coisas conflitantes, e outras condizentes com sua personalidade. Um ambiente caloroso, árido, conservador, familiar, religioso e absolutamente quieto. Durante boa parte do filme o que ouvimos são os sons da natureza, do belo alvorecer no início, das pequenas ondas na piscina natural onde se banha a família de Johan, silêncios de todos reunidos para o jantar, orando sob a batida imponente das horas e com os barulhos de animais ao longe. 

O que vemos? As reações veladas de Johan e de sua mulher, Esther, porque sabem que o casamento está à beira de um colapso, mas procuram não externar suas preocupações na frente um do outro ou das crianças. Logo no início, vemos Johan chorando sozinho na mesa de jantar, e ainda não sabemos por quê. Minutos depois, conversando com um amigo, ele se diz feliz por estar apaixonado por Marianne, com quem está tendo um caso, mas muito triste por não querer ferir os sentimentos de sua mulher, a quem ainda ama, talvez muito mais impelido por uma força de ordem moral e religiosa do que pelo próprio coração.  

Um plano belíssimo dá conta da felicidade que vence Johan quando ele escuta uma de suas músicas preferidas, e fica dando voltas com a camionete ao redor do amigo, atrasando sua partida que se faz necessária, e esperando para escutar um pouco mais a canção que toca. Mais tarde, durante um banho da família na piscina natural dos arredores, Esther esboça um olhar grave, como quem quer afrontá-lo a dizer a verdade, mas recua diante da necessidade de dar atenção a um de seus filhos. Toda essa seqüência na piscina natural demonstra a habilidade de Reygadas em captar a calmaria que esconde uma tormenta, com as pedras lapidadas servindo de resguardo para que as crianças nadem com segurança, cada qual numa profundidade equivalente a seu tamanho, o invólucro perfeito e natural para proteger os filhos do mal do mundo. Os vestidos brancos flutuando na água simbolizando a pureza daquela família, ameaçada pela amante. Não é um corservadorismo do filme, pois Reygadas segue mais de perto Johan, seu dilema, o apêgo pelos que têm o mesmo sangue, a paixão puramente carnal por Marianne. Mas existe o retrato de um conservadorismo que impede que Johan seja feliz amando duas mulheres, cada uma de um modo diferente. Se o destino lhe pregou essa peça de dividir o seu afeto em dois mundos distintos, sua educação não deixa que ele desfrute de um desses mundos, por isso ele deve escolher. 

Exemplar é a cena em que ele vai procurar os filhos que havia deixado com um conhecido enquanto transava com Marianne, e os encontra se divertindo com um clipe de Jacques Brel. Por mais que a imagem da TV seja forçosamente calculada para representar um objeto de culto o trazendo de volta à realidade, existe uma verdade incrível na risada das crianças, no último carinho nas mãos da amante, ou quando ele entra no furgão e se senta no meio dos filhos, decidido finalmente, após algumas horas de hesitação, mas empurrado por uma decisão anterior de Marianne de não mais transar com ele. 

Essa mesma amante, mal entendida, julgada por Esther como puta e coitada, irá ter papel fundamental na vida futura da família. É onde Reygadas se inspira em Dreyer (via A Palavra), e se contenta em deixar o reencontro de dois de seus personagens apenas sugerido, com a lembrança de um longo e marcante diálogo dentro de um carro minutos atrás. Um diálogo confessional, pontuado por momentos de silêncio e tensão. Finalmente presenciamos um renascimento litúrgico, enquanto a natureza nos dá um novo crepúsculo. 

Sérgio Alpendre

 

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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