Cinema - Cultura - Comportamento
KROTKI FILM O MILOSCI. (Polônia, 1988) De Krzysztof Kieslowski. Com Olaf Lubaszenko, Grazyna Szapolowska, Stefania Iwinska, Piotr Machalica. Platina. formato de tela: 1.85:1 82 min.
KROTKI FILM O ZABIJANIU. (Polônia, 1987) De Krzysztof Kieslowski. Com Miroslaw Baka, Krzysztof Globisz, Jan Tesarz. Platina. Formata de tela: 1.85:1. 80 min.
Dos dez episódios que compõem a série televisiva Decálogo, dois deles – os filmes de que trata este texto - tiveram versões estendidas para o cinema. Trata-se do mesmo material montado de duas formas diferentes. Os filmes, em comparação com as versões televisivas, são menos fortes. Há a impressão de que aquilo que já foi muito bem resolvido, sem faltas, em episódios de 60 minutos, ao ganhar 25 minutos a mais para ser levado às salas de exibição, terminou por ter sua força diluída.
Mas isso não tira o interesse dos dois filmes, uma vez que o ato de compará-los aos episódios, apesar de automático e instrutivo, não é motivo principal para valorizá-los ou desmerecê-los. Curiosamente os filmes apresentam uma sensação final um pouco menos pessimista, ao contrário dos episódios do Decálogo, que são mais sombrios. Se tivermos em mente que o percurso criativo de Kieslowski vai da secura cética de seus primeiros filmes até as grandes produções de Marim Karmitz (MK2), mais centradas nos sentimentos humanos abstratos, entende-se que é nessa fase dos anos 80 que ele irá focar seu trabalho cada vez menos nas instituições – por mais que estas estejam sempre presentes – e mais nos seres humanos. Se a descrença nos sistemas estatais já era algo consolidado no pensamento do cineasta, filmes como estes dois aqui em questão mostram que a crença nos homens vai se afirmando de maneira cada vez mais positiva no cineasta, antes mais dedicado a desacreditar, de forma negativa, os organismos políticos e estatais – isso tudo levando em conta que Não Matarás, ainda assim, é um grande questionamento ético sobre o tema da pena de morte.
Não Amarás termina com a insinuação de uma conversão de Magda - a mulher amada que não acredita no amor. Ela, mulher madura e solteira, que olha para a vida de maneira cética, ferida após ter sido abandonada pelo marido, é o objeto de amor do jovem e puro Tomek. Magda, ao conhecer Tomek, sofre um abalo em sua vida ao descobrir que existe uma possibilidade de existência do amor. A habilidade aqui reside na fuga de uma obviedade: Magda, apesar de ao final compreender que o sentimento que Tomek nutria por ela talvez fosse amor, não ama Tomek – ou, ao menos, o filme não dá indícios disso. Ela emite sinais de, gradualmente, desenvolver curiosidade e até afeto pelo jovem que a ama, mas, não oferece a recíproca amorosa. Ela não precisa ser o sujeito que ama para descobrir o amor. É como objeto que ela irá passar por essa experiência. Ao final, Tomek se recupera de uma tentativa de suicídio, e Magda vai visitá-lo em seu quarto. Pela luneta que ele usava para espioná-la, ela vê a ela mesma, no seu próprio apartamento localizado no prédio em frente, em prantos, sendo consolada por Tomek. Tal fato nunca ocorreu na “realidade” da narrativa. Mas tal momento, tratado com ares mágicos, representa uma mudança de percepção de Magda frente à vida. Não Amarás termina esboçando o início da crença em algo que a priori é tido como desacreditado (o amor).
Em Não Matarás, após o jovem Jacek, condenado à morte por assassinato, ter sido executado pela Justiça, Piotr, o advogado que o defendeu (sem sucesso), encontra-se dentro de um carro estacionado no campo, frente a uma paisagem. Ele chora, pois, como advogado correto e novato recém ingressado na vida profissional, acreditava na Justiça enquanto órgão com poderes de transformação da sociedade. Ao desenvolver uma relação próxima com seu cliente Tomek, ele testemunhou e absorveu o sofrimento deste que, apesar de realmente ter matado um outro homem, nos é apresentado pelo filme de forma neutra, tendendo até a retratá-lo como um homem de sentimentos bons. Piotr, ao ver aquele jovem pelo qual começou a nutrir afeto ser friamente executado pelo sistema, descobre que já é tarde demais para sair de uma profissão na qual ele não mais acredita. Sua reação é sofrer. Na imagem final, no campo, antes de se ver Piotr chorando dentro de seu carro, vê-se uma luz no horizonte. Uma luz que oscila e diminui de intensidade, como uma esperança que arrefece. Não Matarás faz o caminho inverso de Não Amarás : termina com a descrença em algo que antes era objeto de crença (a justiça).
Assim sendo, poderia-se afirmar que Não Matarás é mais negativo que Não Amarás. Mas, apesar de fazerem movimentos inversos (da descrença para a crença em um, e da crença para a descrença no outro), os filmes chegam ao mesmo ponto final. Independente de afirmarem ou negarem algo em suas conclusões, ambos os filmes terminam afirmando o ser humano como sendo mais importante do que as questões temáticas ali tratadas. Em Não Amarás, a última cena é a visão que Magda tem na luneta (a afirmação da possibilidade do amor existir), mas o último plano mostra os olhos de dela, que se fecham. Em Não Matarás, na última imagem, na cena do campo, a câmera mostra primeiro o ponto de luz que perde força para depois fazer uma panorâmica e encontrar Piotr chorando em seu carro. Termina-se sempre com um ser humano em quadro antes dos créditos finais.
Tal atitude, que obviamente não é mera casualidade, revela a preocupação essencial de Krzysztof Kieslowski: mostrar a existência humana enquanto uma experiência de sofrimento insolúvel. É nesse ponto que esses filmes consolidam a transição do cineasta em direção a temáticas (e formas) que vão em direção à metafísica. Com ou sem transcendência. Ou, melhor, com transcendências relativas e ambíguas, e nunca necessariamente positivas. Esses filmes, pequenas fábulas de dor, privilegiam as mudanças de olhares e de sensações dos personagens frente à vida. Os filmes de Kieslowski desconfiam do progresso, pois o mundo é estático e (des)governado pelo acaso. O que muda é a percepção dos homens. E essas revoluções internas são tidas como fantásticas, são tratadas sempre como o limite maravilhoso ao qual o ser humano está condenado justamente por possuir essa capacidade poderosa de sofrer transformações.
Fernando Watanabe
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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