Hard Candy
Madonna

(Warner)



 

Hard Candy, o álbum em que Madonna se deixa contaminar pelo hip hop norte-americano depois de uma longa fase européia, obriga alguns saltos no tempo.

Estamos de volta, no estalo de um scratch, à segunda metade dos anos 90, quando o hip hop renascia nas paradas de sucesso dos Estados Unidos como mina de ouro - um gênero reformulado para aliar a atitude agressiva do rock com um apelo dançante, radiofônico por excelência. A corrida pela batida perfeita popularizou rappers como Missy Elliott e, acima de tudo, alterou o figurino de cantoras de soul e pop como Aaliyah e Nelly Furtado, prontas a servir à "má influência" de produtores formados na escola do rap. Os principais arquitetos desse fenômeno comercial, que ainda bate com algum impacto no dial, atendem por Tim Mosley (o Timbaland) e por Neptunes (duo formado por Pharrell Williams e Chad Hugo).

Enquanto a pista fervia e moedas tilintavam, Madonna não estava lá. Num corte brusco, enviava cartas do exílio. Em 1997, quando Timbaland quebrava a porta dos Top 10 com Supa Dupa Fly, de Missy Elliott, a material girl deixava a América para se aliar a produtores europeus. Na Inglaterra, encontraria na eletrônica de William Orbit o porto seguro para compor o introspectivo Ray of Light. Em 2002, quando Justin Timberlake - ele próprio, mais um ídolo em metamorfose - se deixou moldar por Timbaland e pelo Neptunes em Justified, a cantora flertava com a house francesa. Declarava amor pela Inglaterra, criticava o governo Bush, buscava na França o humor auto-irônico de trabalhos como American Life, de 2003, e Confessions on a Dance Floor, de 2005.

Hard Candy é apenas um 'álbum para dançar', segundo a musa escaldada. A aparência despretensiosa pode ofuscar o que há de mais curioso no disco: trata-se de um retorno ao lar, acerto de contas. Prestes a completar 50 anos de idade, Madonna finalmente demonstra interesse por interpretar a música popular norte-americana da última década, e o faz com a dedicação e a acidez de uma experiente comentarista do mundo pop. É um álbum sobre a América empapado de sarcasmo à inglesa. Existe uma estratégia em jogo - Timbaland, Pharrell e Timberlake, que praticamente gerenciam o disco, são hitmakers de berço -, mas ninguém trata o formato com inocência. "Escolha o sabor preferido, eu tenho para você", ela canta logo na faixa de abertura (resposta à misoginia de "Candy Shop", de 50 Cent). A idéia é, como em Music (de 2000), rir do próprio umbigo, mas ainda assim dançar conforme uma lógica abertamente comercial.

Com 63 milhões de álbuns vendidos em 24 anos de carreira, Madonna trata a música pop como um software que necessita de constantes atualizações para se manter eficiente. Como uma viúva negra, se deixou rejuvenescer com os truques de produtores como Nile Rodgers (em Like a Virgin, de 1984), Babyface (Bedtime Stories, de 1994) e Stuart Price (Confessions on a Dance Floor). Em Hard Candy, a estratégia ainda se aplica. É verdade que Madonna chega à festa do hip hop com atraso, sem o apelo do fator-surpresa - o álbum roda como uma seqüência tardia para Justified, de Timberlake, ancorado na disco music dos anos 70 e no pop colorido e despreocupado dos 80. Mas, seduzidos pela musa, Pharrell e Timbaland trabalham dobrado e, nesse esforço de criar um produto maior e melhor (caso contrário, compraremos outro), às vezes se superam, se reinventam. Principalmente Pharrell, leve e solto em chicletes como "Give it 2 Me", "Candy Shop" (com sintetizadores à Kraftwerk) e na doce "Heartbeat".

Nada muito diferente das bombonières de Nelly Furtado ou de Gwen Stefani. Conta a favor de Madonna, porém, a capacidade de amplificar certas tendências do pop e analisá-las com o olhar de uma performer madura, auto-irônica, capaz de forjar confissões, alfinetar a concorrência ("She's Not Me" vai direto ao assunto) e injetar veneno no sabor da estação. Seria essa a fórmula da juventude eterna?

Tiago Faria

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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