Cinema - Cultura - Comportamento
COTTOM COMES TO HARLEM. (EUA, 1970) De Ossie Davies. Com Godfrey Cambridge, Raymond St. Jacques, Colvin Lockheart, Redd Foxx. Magnus Opus. Formato de tela 2.35:1. 97 min.
(EUA, 1971). De Melvin Van Peebles. Com Van Peebles. Magnus Opus Formato de tela: 1.85:1. 97 min.
BLACK CAESAR. (EUA, 1973). De Larry Cohen. Com Fred Williamson, Gloria Hendry, Art Lund, William Wellman Jr, D'Urville Martin, Val Avery. Magnus Opus. Formato de tela: 1.85:1. 87 min.

O Chefão do Gueto, de Larry Cohen
A caixa que a Magnus Opus lançou recentemente sobre o titulo de Blaxploitation é muito bem-vinda. Dois dos três filmes contidos nela estão entre os mais interessantes produzidos no cinema americano do período, mas deve-se dizer que seu título, apesar de excelente peça de vendas, é um tanto enganador. Blaxploitation é um desses termos utilizados com tanta freqüência – especialmente depois que Tarantino lhe concedeu uma aura de cult respeitável com Jackie Brown – que seu significado foi aos poucos se diluindo. O termo se refere a um ciclo específico de filmes realizados aproximadamente entre 71 e 76, após o sucesso de Sweet Sweetback Baadasssss Song , mas passou a significar qualquer filme que fosse estrelado por atores negros. Apenas O Chefão do Gueto entre os filmes lançados pela Magnus Opus realmente se qualifica e mesmo assim deve-se dizer que se trata de um caso de filme em que um cineasta se aproveita de um gênero popular do momento para fins autorais bem especificos (é o equivalente blaxploitation das pornochanchadas do Carlos Reichenbach).
Rififi no Harlem foi o primeiro filme dirigido pelo ator Ossie Davis e pertence ao momento imediatamente pré-blaxploitation, em que os estúdios ainda estavam buscando uma forma de alcançar o público negro e atirando para todos os lados no processo. No caso, trata-se de uma adaptação de um dos romances de Chester Himes sobre Ed Caixão (Raymond St. Jacques) e Coveiro Jones (Godfrey Cambridge) dois policiais negros cuidando de intrigas locais no harlem. O ponto forte do filme de Davis é o uso de locações – a maior parte delas invisiveis até então – sempre muito expressivas, e a quimica entre os dois protagonistas. O tom farsesco do filme às vezes o emperra, mas trata-se de uma tentativa sincera do cineasta de encontrar um cinema popular negro.
No extremo estético oposto se encontra Sweet Sweetback Baadasssss Song. O filme de Van Peebles é uma das peças políticas mais agressivas já produzidas. Desde sua imagem inicial, com um garoto negro perdendo a virgindade junto a um grupo de prostitutas, enquanto os créditos anunciam que se trata de um filme estrelado pela comunidade negra, já temos estabelecido o tom combativo desejado pelo cineasta. Sweetback é um filme profundamente desconfortavel: imagens de violência, pobreza da produção (raramente tão bem utilizada), tom repetitivo da trilha do Earth, Wind & Fire, a disposição do cineasta em quebrar com todas as regras de conteúdo e estética. A recepção crítica condescendente sempre se referiu a Sweetback como um filme naif, mas nada podia estar mais distante disso. Se Van Peebles quisesse, poderia facilmente realizar algo como Rififi no Harlem, a maior parte da suposta “grosseria” do filme é visivelmente proposital, bem distante de um cinema inocente, Sweetback é um filme sofisticado e, nos seus maiores momentos, Van Peebles alcança uma concentração rara. Naquela que é a seqüência chave do filme, em que Sweetback comete seu crime inicial – bater em dois policiais que estão espancando um pantera negra –, vemos Van Peebles sozinho sobre um fundo preto com pouca iluminação enquanto observamos seu desconforto crescente até a explosão de violência; o foco da imagem permanece no corpo de Van Peebles enquanto ele parte para a ação. Trata-se de um dos momentoss mais fortes de todo o cinema americano.
O Chefão do Gueto parte do arquétipo do filme de gangster (sua trama é basicamente um encontro entre Alma no Lodo, de Mervyn LeRoy, e Scarface, de Hawks) e reapresenta ele com um protagonista negro (Fred Williamson, em performance de impressionante força). Neste sentido lembra bastante o recente O Gangster, mas enquanto Ridley Scott esta preguiçosamente satisfeito em sugar seus arquétipos sem grandes preocupações de construir um filme a partir deles, Cohen aproveita que todo seu público já conhece a história de ascenção e queda de Tommy Gibbs para abrir mão da narrativa em favor de uma série de retratos rápidos desse processo: Tommy negociando sua parte do Harlem junto aos italianos, Tommy humilhando seu advogado branco ao comprar-lhe o próprio apartamento, Tommy e a namorada sozinhos na intimidade, etc. Tommy é o herdeiro de Sweetback, pura fúria desgovernada. Poder é o tema central de todos os filmes de blaxploitation e mais do que nunca aqui. Sweetback também não deixa de ser um psicodrama sobre poder, mas enquanto Van Peebles filma a anárquica necessidade de seu herói em conquistá-la, Tommy Gibbs parece já exercê-la naturalmente e sua necessidade é de demarcá-la constantemente. Cohen é ótimo em preencher seu filme com detalhes de fundo, como o excelente pastor (D'urville Martin), que ancoram e enriquecem o mundo do seu protagonista, nesse sentido o filme é expansivo na mesma medida que Sweetback é um filme fechado em algumas poucas modalidades de registro. O Chefão do Gueto em toda sua força e fúria se assemelha a um perfeito numero de hip hop do começo dos anos 90. Cohen é o único cineasta branco da caixa, mas era também um dos melhores, e menos reconhecidos, cineastas políticos do período e retira o máximo que o formato tem a lhe oferecer.
Filipe Furtado
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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