Tha Carter III
Lil'Wayne

(Cash Money)

Viva La Vida
Coldplay

(Capitol)



 

Em “Dr. Carter”, uma das melhores faixas do novo, extremamente ambicioso e muito aguardado álbum de Lil’Wayne, o rapper se reimagina como cirurgião diante de um paciente terminal: o próprio hip hop. Nada pode ser mais distante da humildade um tanto artificial do Coldplay, mas Tha Carter III e Viva La Vida tem muito em comum para além de provavelmente estarem destinados a vender mais copias do que todos os outros álbuns resenhados aqui na Paisà nos dois últimos meses somados, está lá o mesmo desejo de injetar uma boa dose de excentricidade no mainstream dos seus respectivos gêneros, de provar que podem ser comercialmente viável e artisticamente audaciosos, etc. Em suma, as pretensões são bastante similares, apesar de embalagens e recepções radicalmente diferentes.

Se Tha Carter III é um disco muito mais forte, é justamente conseqüência das expectativas de hip hop servirem melhor a estas ambições: a arrogância de Lil’Wayne é muito mais simpática aos nossos ouvidos do que a sinceridade de Chris Martin. Tha Carter III, apesar de sua inegável irregularidade, é um disco em movimento constante rumo a um objetivo claro; enquanto Viva La Vida é um disco um tanto envergonhado de ser o que é. Esta diferença de personalidades também ajuda a explicar como a dificuldade de encontrar algum comentário negativo sobre Tha Carter III se equipara ao tom derrisório que com freqüência acompanha as críticas de Viva La Vida. O apreciador de música pop parece propalado a amar Wayne com a mesma força que precisa desdenhar Chris Martin. Impressiona como em cada site com sistema de comentários, as críticas a Viva la Vida, mais ou menos positivas, vem sempre acompanhadas de um sem número de comentários na linha "mas quem se importa com Coldplay?", como se a mera existência da banda fosse uma afronta para muitos.

Os defeitos do Coldplay são expostos de maneira quase cômica logo na segunda faixa “Cemiteries of London”, que termina sendo limpa e segura demais na sua tentativa de soar o oposto. Viva La Vida é menos interessante justamente quando o Coldplay parece se esforçar muito, seja para agradar a todos (o bombástico primeiro single “Violet Hill”) ou ao tentar provar que pode buscar um som diferente (a faixa título). Quando a banda parece se acalmar e se concentrar em produzir canções com ganchos exatos e sonoridade envolvente como “Lost!”, “Yes” ou “Chinese Sleep Chant”, porém, percebemos que Coldplay apesar de suas ambições e ocasional grandiloqüência é uma banda capaz de produzir excelentes e grudentas canções de 3 minutos. Na faixa certa como “Yes”, mesmo os vocais de Martin se tornam envolventes na sua entrega sincera. Nos melhores momentos de Viva La Vida, a banda parece tão concentrada em afirmar que ela importa – é menos uma questão de uma construção sonora ambiciosa e muito mais uma crença mesmo – que acabamos sendo obrigados a dar o braço a torcer. Mesmo a produção de Brian Eno tem como grande mérito menos o som mais variado do álbum - apesar disto por vezes ajudar - e muito mais agir como um bom produtor-policial que mantém o disco compacto e tenta controlar as piores tendências de todos os envolvidos. Viva La Vida é bastante irregular, constrangedor às vezes, falso outras, muito envolvente nos seus melhores momentos, mas é também um bom lembrete que por mais irritante que Coldplay possa ocasionalmente ser, seus fãs poderiam estar ouvindo algo muito pior.

Tha Carter III é tão irregular quanto Viva La Vida. Ouvi-lo de ponta a ponta pode ser extremamente frustrante, justamente porque percebemos que Wayne poderia ser mesmo o melhor rapper vivo como se autodenominou (Jay-Z até faz uma ponta passando a coroa em “Mr. Carter”), não fosse tão inconsistente. O problema precisamente é que a inconsistência consiste em parte inevitável da abordagem de Wayne. Tha Carter III atira para todos os lados e assim como é improvável que algum fã de hip hop não encontre ao menos algumas faixas que lhe digam algo, outras inevitavelmente se revelam desastrosas. Pode o mesmo responsável pela genial excentricidade de “Phone Home” se contentar em ser um quase coadjuvante de Babyface em “Comfortable”? Ao mesmo tempo, imagino que para muitos, a reação às faixas seja inversa. A reputação de Wayne se elevou a de um superastro graças as mixtapes que produziu nos últimos anos, em que a quantidade sempre veio a frente da qualidade. A mesma lógica reina em Tha Carter III, um álbum pensando conscientemente para esta era dos downloads, em que álbuns não são consumidos como obras fechadas, mas baixados da web ou uploadeados no iTunes e onde um terço de suas faixas podem facilmente ser deletadas. Trata-se de uma gordura consciente, um disco mais compacto não resolveria o problema, pois a abordagem de Wayne seguiria a mesma. Dito isso, minha versão pessoal de Tha Carter III é mesmo uma pequena obra-prima, ou ao menos uma que está em luta constante com sua produção (o épico sobre New Orleans “Tie My Hands” vai aos poucos se transformando em uma batalha entre Wayne e o produtor Kanye West). O que torna Lil’Wayne grande é sua voz única e segura, que nos melhores momentos consegue frases curtas, secas e cortantes como nenhum outro superstar do hip hop contemporâneo, desde que ele permita que ela esteja em primeiro plano, Tha Carter III é irresistível.

Filipe Furtado

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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