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(Lo-max/Gigantic Music)

Ayers tem história. Participou do Wilde Flowers, embrião de toda a cena de Canterbury, formando depois, com Robert Wyatt e Mike Ratledge, o Soft Machine, grupo chave de todo o rock progressivo, onde ficou por quase dois anos, participando do primeiro disco da banda.
Em 1969, com Joy of a Toy, iniciou sua sensacional carreira solo - com muitos pontos em paralelo com a de Robert Wyatt, que se iniciaria dois anos depois, vale dizer. Ambos se debruçavam muito mais nas melodias do que nos flertes jazzísticos (que eram o mote do Soft Machine), e possuíam influência indisfarçavel de Scott Walker. Ayers, com sua voz grave. embriagada e empolada, conseguia uma combinação perfeita nas canções mais lentas, e um estranhamento estimulante nas mais psicodélicas.
Algumas obras fantásticas se seguiram em sua carreira, com especial destaque para algumas obras essenciais da música inglesa (sem exagero): Shooting at the Moon (1970), Whatevershebringswesing (1971), Bananamour (1972), Confessions of Dr. Dream and Other Stories (1974) e Yes We Have No Mañanas (1976). A partir daí seus discos, ainda que com qualidade muito acima da média, já não apresentavam tanta novidade, a não ser em um ou outro lampejo do genial guitarrista Ollie Halsall (ex Patto e Timebox).
Eis que no final de 2007 é lançado na Europa, Austrália e Japão The Unfairground, que em 2008 chegaria aos Estados Unidos (o mercado brasileiro analfabeto, claro, continua ignorando este músico fenomenal), sendo o primeiro trabalho de Ayers desde o excelente Still Life With Guitar, de 1992. APaisà, portanto, presta um atrasado e justo tributo a seu aguardado retorno.
Foram quase dois anos de gravações por Estados Unidos, Inglaterra e Escócia. The Unfairground parece retomar um trabalho notável realizado em Whatevershebringswesing, de melodias à Beatles, levadas vaudeville, arranjos levemente burlescos e a voz intacta de Ayers. As participações foram valiosas: Phil Manzanera (Roxy Music), Hugh Hopper (Soft Machine e milhares de projetos jazz-prog), Dave McGowan (Mogwai e Teenage Fanclub), Robbie MCintosh (Pretenders e Paul McCartney), Graham Henderson (Fairground Attraction), Norman Blake e Francis McDonald (ambos do Teenage Fanclub), Jeff Barron (Ladybug Transistor) e Bridget Saint John (cantora folk de discos belíssimos, e que já havia trabalhado com Ayers), entre muitos outros. A produção ficou a cargo de Peter Henderson e Gary Olson (músico do Ladybug Transistor que toca em várias faixas), além do próprio Ayers.
Começa já com uma faixa que parece derivada do LP Magical Mystery Tour, mas traz a marca inconfundível do artista: "Heaven Knows" é o tipo de abertura que aquece nossos ouvidos, prepara para as doses maciças de sentimento que vem pela frente. Dá até para dançar, de um jeito meio estranho, com o arranjo que incorpora, como várias canções de sua carreira, aspectos musicais do folclore europeu - músicas dos ancestrais, podemos dizer.
"Cold Shoulder", com seus efeitos sessentistas, parece nos convidar para uma viagem ao passado, algo comum a todas as faixas do disco, mas presentes sobretudo em "Baby Come Home", "Walk on Water" e "Friends and Strangers", música que conta com uma guitarra espetacular de Manzanera. Por esse pendor sessentista, os que abominam nostalgia devem se afastar deste disco.
"Wide Awake" é das mais animadas, com um trabalho de guitarra de Manzanera que nos dá saudades dos que Andy Summers e Ollie Halsall (falecido em 1992) realizavam nos discos do passado, "Shine a Light" tem um clima de cabaré, uma fossa que cai muito bem na voz de Ayers, e a faixa título mescla o circense e o blueseiro em pouco menos de quatro minutos. "Brainstorm" é a mais densa, com ruídos e um instrumental pesado e meio sombrio. Uma belíssima faixa, sem dúvida.
O disco se encerra com a perfeita "Run Run Run", de uma melodia inacreditável, levada por um teclado sacana e por backing vocals festivos. Após o final da melodia, alguns barulhinhos, e o músico fala, com classe: "end", lembrando mais uma vez os Beatles. The Unfairground é a prova de que o ostracismo não fez mal a Ayers, que continua brilhando como poucos no mundo da música.
Sérgio Alpendre
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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