Cinema - Cultura - Comportamento
(EUA, 2008) De Michael Patrick King. Com Sarah Jessica Parker, Kim Catrall, Cinthia Nixon, Kristin Davis, Chris Noth. Playarte. Projeção:1.85:1 148 min.
Talvez o grande mérito de Sex and The City – O Filme seja algo que muito se fale ao contrário em relação à série. Na televisão, tanto detratores quanto defensores, diziam que ali estava representada a mulher moderna, que o seriado dava conta das novas questões que surgiam no meio feminino. Não conheço o seriado a ponto de poder concordar ou discordar dessas afirmações, mas essa preocupação, essa intenção prepotente de espelhar todo um universo composto por diversos indivíduos, não está no filme. O que está ali são quatro mulheres; que, claro, vivem questões, dúvidas, alegrias com que muitas outras mulheres se identificarão; porém, não está no discurso narrativo do filme utilizar suas personagens como representação de um universo, mas sim de questões relativas a esse universo.
Apesar de um ponto de partida interessante no lidar com as personagens, a narrativa do filme possui diversos problemas. O primeiro a saltar aos olhos é o causador da grande duração do filme. De início fica claro que Carrie é a protagonista; além de sua narração em off ditar a sucessão de acontecimentos, é dela o drama que impulsiona o reencontro das quatro amigas. Assim, num primeiro momento, as outras três acabam sendo suporte para a personagem de Sarah Jessica Parker; deixando claro que não há nada de necessariamente diminuidor em ser um suporte, um coadjuvante. A importância das três na vida de Carrie é enorme, o que fica claro, principalmente, nas cenas em que as amigas encontram-se sozinhas (por vezes acompanhadas da encantadora Lilly). Mas, para dar conta do ego de personagens e atrizes, a coisa não pode parar por aí. Cada uma das outras três recebe seu “momento de protagonista” no filme; essas inserções são completamente esquemáticas, soando por vezes como esquetes inseridas no drama que está sendo a vida de Carrie. Daí surgem as desinteressantíssimas histórias de Miranda e Charlotte. Seus dramas jogam o filme lá para baixo, acompanhados dos insossos personagens de seus maridos. Por outro lado, daí também vem os ótimos momentos de Samantha (sem dúvida, a grande personagem feminina do filme, muito bem vivida por Kim Cattrall) com seu novo vizinho Dante.
É com Samantha que de fato vemos vida feminina no filme. Pois Carrie acaba retratada como algo superior, uma entidade admirada por todos; e assim, torna-se rasa e muito chata em sua magnitude. Já Miranda é quase todo o tempo uma boa coadjuvante para Carrie, mas sem ir muito além disso. E Charlotte é das personagens mais desinteressantes que já existiram. Ela não é nada; e carrega consigo um dos momentos mais infelizes do filme: a piada de não comer comida mexicana – além de ser de um mal gosto desnecessário, vindo de uma personagem que adotou uma filha na China, não parece fazer nenhum sentido. E Samantha é o oposto de todas as três; ela, apesar de possuir um forte estereótipo, é a mais palpável do grupo. Ela erra, ela exagera, ela morre de desejo… Há nela uma espontaneidade, mesmo nos momentos mais exagerados (video sushi de valetine`s day) que a tornam extremamente simpática e viva. Infelizmente Samantha sofre uma grande “traição” imposta pela narrativa do filme. Essa mulher impulsiva, impetuosa e insaciável que nos é apresentada acaba por resistir ao corpo de Dante e, mesmo depois de terminado seu casamento, não corre atrás de nenhuma situação sexual. Atitude esquisita e, acima de tudo, covarde.
Há, também, um outro bom personagem: Big. Assim como Samantha, ele carrega muita dúvida, muitos erros e, consequentemente, muitos elementos de identificação. O filme com ele em cena ganha muito. Mas ele acaba limado da narrativa. E há algo de terrível na forma como o filme trata esse “deixar de lado” o personagem de Chris Noth; num recorte de mundo retratado onde dominam as máscaras sociais, as preocupações com saber se portar de forma adequada, Big é o primeiro a quebrar isso. O momento de dúvida pelo qual ele passa instantes antes de casar é o oposto de tudo o que ele deveria fazer; ali ele se coloca à margem das obrigações sociais e age apenas como um indivíduo que não sabe o que fazer. Claro que a sinceridade da ação de Big não eliminaria, a priori, a sinceridade na reação de Carrie. Porém, o curto diálogo deles, instantes antes de Carrie esbofeteá-lo com seu buquê, demonstra claramente as preocupações de cada personagem: Big diz que teve um momento de fraqueza, mas já está pronto. Ou seja, ele está pensando em coisas absolutamente suas; a fraqueza foi dele com ele mesmo, sendo assim, repleta de sinceridade. Já Carrie se diz humilhada e parece muito mais preocupada em ter vivido uma situação de vergonha pública do que em deixar de compartilhar sua vida com o ex-futuro marido. Infelizmente o filme segue acompanhando Carrie; e talvez esteja aí o grande problema. Há ali belas idéias, um projeto interessante, mas a personagem que dita a narrativa, que encaminha os acontecimentos, é uma escolha totalmente infeliz.
Francisco GuarnieriRevista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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