Serras da Desordem
Daniel Caetano (org.)

Azougue. 146 pags.



Não há duvidas de que Serras de Desordem seja um filme especial. Um dos grandes momentos do cinema brasileiro recente. Sua longa carreira desde a primeira exibição na Mostra de Tiradentes em 2006, até a entrada no nosso circuito comercial é acrescida agora deste pequeno livro (144 paginas) que Daniel Caetano, professor e redator da Contracampo, organizou. São cinco ensaios e uma entrevista de grande fôlego que dão um panorama rico, mas ficam bem longe de esgotar, do filme de Tonacci.

Os ensaios são bem variados na sua abordagem e se completam. Por exemplo, as questões de representação levantadas no texto da etnóloga Clarice Cohn poderiam ser vistos como um tanto surrados a esta altura, mas se encaixam muito bem dentro do painel traçado ao longo do filme e ajudam a ancorar o livro um pouco, torna-lo menos hagiográfico na sua defesa apaixonada do cinema de Tonacci. O livro é aberto com um belo artigo de Ismail Xavier, que, de maneira introdutória, inclui o filme dentro de toda uma história de cinema que data do Nanook, O Esquimó, de Robert Flaherty e vai acompanhando a narrativa do filme e as opções do cineasta para apresentá-lo. Em outra chave, Luis Alberto Rocha Melo usa sua notável habilidade de achar um olhar novo dentro de velhas questões, para, partindo do uso das imagens de arquivo, encontrar como o filme constrói todo um olhar sobre o país ao longo da década de 80.

Uma das melhores características do livro é como quase todos os ensaios não divorciam o filme de toda a história do cinema brasileiro, como o discurso oficial do nosso cinema teme em insistir. Isto é especialmente visível no artigo de Caetano que aproxima as trajetórias de Tonacci e Rogério Sganzerla e observa a relação entre Serras e o igualmente seminal O Signo do Caos (2003); e sobretudo na contribuição de Rodrigo de Oliveira, provavelmente o melhor artigo do livro, em que parte das estratégias de encenação de toda a obra de Tonacci (não só os classicos em película Serras e Bang Bang, como as raridades Jouez Encore, Payez Encore e Conversas do Maranhão) para chegar em como

foi preciso todo um périplo em torno do cinema e suas diversas manifestações, uma percepção cada vez mais aprofundada do modo de funcionamento de cada uma delas, uma sensibilidade fundada na observação do mundo e dos fenômenos humanos e sociais, para que um cineasta pudesse se colocar fisicamente dentro de seu filme e isso não parecer um desdobramento de arte sobre si mesmo, a denuncia do seu aparato, de sua construção, mas, ao contrário, o lugar justo para seu corpo."

Serras da Desordem é o primeiro livro da coleção Odeon com qual a Azougue pretende contemplar filmes chave do cinema brasileiro contemporâneo. Trata-se de uma iniciativa das mais saudáveis, já que temos muitos filmes recentes que poderiam receber este olhar de fôlego. Aguardemos os próximos volumes.

Filipe Furtado

Crítica de Serras da Desordem por Sérgio Alpendre

Entrevista com Andrea Tonacci

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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