A Questão Humana

LA QUESTION HUMAINE. (França, 2007) De Nicolas Klotz. Com Mathieu Amalric, Michael Lonsdale, Lou Castel, Jean-Pierre Kalfon. Imovision. Projeção: 1.66:1 143 min



É sempre ruim quando vamos rever um filme tido em altíssima conta e descobrimos todas as artimanhas montadas para fazer dele um monumento à poesia cinematográfica. O efeito é o de uma queda vertiginosa aos nossos olhos, seus atributos outrora certeiros se transformam em truques facilmente desmascarados quando submetidos a uma luz mais forte. Mas revisão serve justamente para isso. Para jogarmos luz nas entranhas, percebermos algo que se escondia por trás da tensão e da excitação inerentes a uma primeira visita, reconhecermos, finalmente, as engrenagens por trás do que nos emocionou num primeiro momento. Corro o risco de fazer aqui um texto desconjuntado e também problemático. Mas, como Klotz neste filme de certa maneira questionável, humildemente me submeto ao risco.

A Questão Humana sofre com essa nova exposição. Sofre brutalmente, poderíamos dizer. Percebe-se a cada minuto como os personagens-títeres estão trabalhando para que encontremos a humanidade que do filme quer se despreender. Humanidade que viria de um tema forte, da escolha do lado certo numa descoberta de práticas nazistas. Seria Klotz, por esses motivos, um titereiro habilidoso na arte de nos sobrecarregar com poesia à fórceps? O que parecia direto, econômico, essencial, como nos últimos filmes de Cronenberg, revela-se frio, calculado ao extremo, pronto para provocar "ohs" de platéias tocadas pelo tema que se impõe aos poucos.

Vejamos alguns exemplos desse cálculo da poesia: Simon (Mathieu Amalric) está num bar onde companheiros de serviço se divertem. Vemos que eles estão cantando, Simon também, mas Klotz coloca uma bela canção pop brigando com o que sai da boca deles. Briga vencida, aliás, pois nada ouvimos do que eles cantam, soterrados que estão pela canção escolhida para a trilha. Com esse ruído entre som e imagem, Klotz parece almejar a poesia fácil do estranhamento, que passa somente pela edição, nunca pelas pessoas que estão representando. O efeito permite que essas pessoas fiquem em segundo plano, a alegria delas encoberta pela música bacaninha que ouvimos.

Em outro momento, ouvimos (e vemos) um senhor que canta um fado - pouco antes havíamos visto e ouvido um sensível lamento folclórico espanhol. As pessoas acompanham as performances com reações diversas, mas quase todas beirando a impassividade. São estátuas a serviço de uma denúncia da automatização. Mas os que nos interessam, Simon e Louise (seu caso de amor), reagem de maneira oposta. Ele parece impaciente, incapaz de sentir o sofrimento à sua frente. Ela fecha os olhos, visivelmente tocada pela arte que vem do coração daqueles cantores solitários. O celular dele toca, livrando-o da indiferença e provocando o desprezo dela. Esse choque de atitudes me pareceu forçado, algo escancarado para que sintamos a diferença entre a mulher sensível e aberta às emoções e o homem corporativo e entregue somente à sua empresa - para que depois fique mais tocante sua transformação no final.

A piração de Simon na rave também me pareceu um equívoco, principalmente pela necessidade sentida de se atribuir a ele uma espécie de humanidade. Afinal, ele também se desespera, assumindo que está perdidamente apaixonado. Drogado, ele parece se mostrar como realmente é, um doente. Sóbrio, sua doença é escondida pela frieza executiva de terno escuro. Mas o que realmente incomoda é o percurso de barco até a rave, e o que acontece depois dela, envolvendo o mesmo personagem secundário. Na ocasião, o assistente executivo recém-contratado disfarça sua submissão num ato de pretensa rebeldia mascarada pela obediência cega, mas facilmente contido pelo condutor de um outro barco. Mais tarde, esse mesmo serviçal limpa o chefe, Simon, com lenços umedecidos, mostrando a que veio. A mão pesada da cena não esconde a limitação de Klotz como engendrador de poesia, pois deixa clara a artimanha de que falei no início. Mostrar a servidão humana lhe parece a melhor forma de provocação. Mas alguém pode comprar a tomada de consciência de Simon depois dessa cena grotesca? Como alguém que se submete a esses tratos por uma outra pessoa pode descobrir seu lado humano? Um tiro que saiu pela culatra humanista de Klotz?

O minuto final, com a tela preta, também se revela uma artimanha gélida, pois percebemos que faltava ao personagem de Amalric a capacidade de fechar os olhos para sentir. Mas as atrocidades que se insinuam, ou melhor, que se escancaram à sua frente - em linguagem poética, claro - são fortes demais para que ele sinta de olhos abertos. E o ator de olhos esbugalhados os fecha justamente na hora em que o que veríamos seria o mesmo que ele veria - os músicos executando -, e o que ouvimos é sua consciência libertada, não os músicos que a libertaram.

Os seis parágrafos acima são indicativos de que A Questão Humana é um mau filme? Certamente não. Revelam, ao menos para este crítico ainda confuso por revisão tão problemática, que foi levianamente superestimado, como aliás têm sido inúmeros filmes franceses nos últimos anos (as fofuras de Honoré sendo os exemplos perfeitos).

Nicolas Klotz é um diretor que sabe compor planos, colocar seus atores em quadro - à uma distância certa da lente da câmera; exigir deles, mesmo de um ator como Amalric, sempre propenso ao overacting, uma postura de acordo com o que ele quer passar. Sabe, acima de tudo, o tempo certo de cada cena, quando deve vir o corte para que se alcance exatamente a emoção pretendida. É um titereiro, afinal, mas talentoso. Se o filme se ressente demais do cálculo, há boa dose de entrega em seus meandros, especialmente nas participações de Michael Lonsdale como o presidente da empresa, acusado de estar enlouquecendo. Se ficam aparentes demais suas artimanhas poéticas, as armadilhas que ele enfrenta pelo caminho são igualmente sedutoras. É como um aluno que resolve se rebelar contra a fórmula ensinada pelo professor de matemática, e, mesmo sabendo que está fazendo errado e de forma mais difícil, insiste em seguir pelo próprio caminho.

Klotz realiza uma operação perigosa, afinal, porque, como nunca antes em seu cinema, ele investe suas forças em imagens claramente construídas para causar impacto, seja pela trilha fofa que as acompanha, seja pela sordidez da encenação ou do entorno - ambientes frios da empresa, casarão do presidente, rave, chuva sobre as águas, o quarto de Simon. Se essas imagens nem sempre casam com a exposição de uma trama que pedia, sim, algo menos calculado e mais jogado, direto, como ele parecia ser numa primeira visão, Klotz ainda assim é feliz em permitir que se vislumbre a força da história. Se exagera no uso da música como elemento poético, sabe escolher muito bem as canções, provocando uma certa culpa por nos sentirmos embalados por elas. Como a construção desse impacto provocado pelas imagens é plenamente revelada numa revisão, tudo o que nos sobra é o drama realmente forte que se desprende das descobertas de Simon. Parece paradoxal, e talvez realmente seja: um filme que cai numa revisão, mas com hombridade. Os fãs não reconhecerão essa hombridade, pois não conseguirão enxergar a queda. É necessário, então, deixar de ser fã. Mergulhar insistentemente num bombardeio ao filme.

E o bombardeio mostra que o paradoxo é forte em diversos sentidos: quanto mais se aproxima de um exercício formal, mais A Questão Humana se arrisca a demonstrar todas as suas engrenagens, estando vulnerável, e se mostrando belo de uma forma que seus fãs não têm como perceber. Quanto mais Simon descobre a sujeira empresarial que ele tanto lutava para fortalecer, mais o filme se afasta de uma suposta humanidade, para se revelar, em alto e bom som, um propagador incompetente (ainda bem) de idéias nocivas de cinema (a poesia em excesso, sempre ela), que a qualquer momento podem ficar descontroladas. Quanto maior o tombo que algumas seqüências impoem ao filme, mais ele coleta forças para se levantar, como um moleque capeta, que quanto mais apanha mais se rebela. Há algo de interessante e assustador nesses paradoxos todos, o que impede que se descarte esse hibridismo artístico disfarçado de crueldade seca, mas também que se entoe loas exageradas a ele. O filme resistiria a uma nova revisão de peito aberto, como poucos parecem querer fazer? É mais uma questão.

Sérgio Alpendre

 

A política do gesto, por Filipe Furtado

 

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Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

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Programação visual: Renan Fogaça

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