Novas Bossas
Milton Nascimento e Jobim Trio

(EMI)



 

Cinqüenta anos depois do nascimento oficial da bossa nova, após o gênero ter sido explorado à exaustão, com interpretações dos mais variados níveis, será possível que um disco com “Chega de Saudade”, “Samba do Avião”, “Caminhos Cruzados” e “Brigas Nunca Mais” se eleve entre tudo o que já foi tocado - por tanta gente boa e ruim? Novas Bossas, disco de parceria entre Milton Nascimento e o Jobim Trio, não nasceu com esse intuito, nem pretende inovar num campo em que tudo já foi tentado: da fusão com a música eletrônica à releitura de clássicos do rock, em ritmo de bossa. Mas serve bem para demonstrar que, dos medalhões da MPB, Milton está ao lado de Caetano e Bethânia, os que ainda produzem material interessante e de qualidade, e que, em certas canções, chegam a lembrar seus momentos de grandeza.

Esta distinção fica clara na comparação deste Novas Bossas com o Gal Canta Tom Jobim, que é só a voz bem treinada de Gal e mais nada, diferentemente da elevação artística de quando a cantora dedicara um disco inteiro a Dorival Caymmi. Novas Bossas, por sua vez, traz criatividade nos arranjos e um entrosamento evidente entre Milton e os Jobins, filho e neto de Tom, e o batera Paulo Braga, companheiro das antigas, combinando formação jazzística com os ricos falsetes do cantor, num resultado sensível e superior a 90% do que se relacionou à bossa nova nas últimas décadas.  

“Brigas Nunca Mais” começa com uma assombração, que é a voz de Paulo Jobim, cópia melhorada do canto sussurrado de Tom, tão parecida que nos faz pensar que é o maestro cantando lá, num disco que nasceu em sua homenagem. E “Chega de Saudade” tem mudanças de andamento que diferenciam esta interpretação das centenas de versões que a canção já recebeu. E tem Milton cantando, o que, para o próprio Tom Jobim, era sempre a forma como as letras de suas canções deveriam ser ouvidas – “Eu Sei Que Vou Te Amar”, que não está neste disco, carimba o que Tom quis dizer quando apontou Milton Nascimento como seu melhor intérprete.

“Samba do Avião”, aqui, parece pastiche de bossa nova? Parece, sim. Mas a versão original, de Tom, já assumia este caráter de auto-referência bem humorada, sem deixar em segundo plano a genialidade da composição.

E o disco não é só das bossas dos apartamentos do Leblon. O Jobim Trio se aventura por composições que fizeram o sucesso do Clube da Esquina, como “Tudo Que Você Podia Ser” e “Cais”, sem o arrebatamento das interpretações originais, mas com precisas versões de câmara, mais adequadas ao atual alcance vocal de Milton, que já não é nenhum menino. 

Entre as muitas homenagens aos 50 anos da bossa nova, com previsão de show conjunto de Caetano e Roberto Carlos, mais apresentação de João Gilberto após anos de silêncio, este Novas Bossas é registro que faz crer que a música que encantou Sinatra e o resto do mundo ainda pode ser cantada e revista mais inúmeras vezes, e sem constrangimentos.

Alexandre Carvalho dos Santos

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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