Longe Dela

AWAY FROM HER . (Canadá, 2006). De Sarah Polley. Com Julie Christie, Gordon Pinsent, Olympia Dukakis. Projeção: 1.85:1. 110 min.



Alguns minutos de passeios por fóruns, comentários de blogs, comunidades do orkut ou listas de discussões são suficientes para percebermos que se um crítico, um pobre e muitas vezes não remunerado amante de cinema desce a lenha em um filme de tema nobre, ele passa a ser alvo do escrutínio absurdo de gente que confunde as coisas, mais por ignorância do que por bons sentimentos. Logo, um filme sobre alguém que sofre do mal de Alzheimer é, automaticamente, isento de receber críticas, não pode ser colocado em crise, e já está num panteão que um simples mortal - o crítico - não deveria tocar.

Longe Dela, de Sarah Polley, por vezes é tão acadêmico que parece dirigido por uma máquina automatizada, com algumas seqüências que servem como exceções, como a primeira visita do marido ao sanatório, mais bem filmada que o habitual, mas uma das mais problemáticas, pois reforça a superioridade daquela pessoa sobre a instituição, sem deixar espaço para qualquer interpretação do público. É um lugar asséptico e horrendo, com sua luz invasiva lembrando um pós-vida e ponto final. No final da seqüência ouvimos um único tom de piano na trilha. Minimalismo? Não, era um interno tentando tocar o instrumento. Família Savage ao menos é digno ao deixar a dúvida dos protagonistas também com o espectador. Para não falar de Samuel Fuller, que realiza uma autêntica descida ao inferno em Paixões Que Alucinam. Ou de A Salvo, em que Todd Haynes deixa tudo nebuloso, e mal sabemos qual é o verdadeiro problema da protagonista. Longe Dela, nessa seqüência infeliz, mostra somente o lado piedoso, o absurdo que seria a internação naquele lugar, com cenas das mais chantagistas que podem existir.

Felizmente, a personagem de Julie Christie está decidida pela internação, antes que sua doença incomode o marido. As visitas seguintes, portanto, desmentem um pouco essa impressão inicial, e mostram um local que acaba se harmonizando, as pessoas interagindo rapidamente com o meio, formando pequenas turmas; até a luminosidade parece mais natural, os funcionários mais compreensivos, menos mecanizados. Conforme ele percebe que a mulher sofreria muito mais fora dali, as coisas tendem a se tornarem mais funcionais, menos chantagistas, e o filme ganha com isso, melhora sensivelmente a partir de uma aceitação da efemeridade do corpo e da mente. Os momentos dentro do saguão do sanatório, a área em que os internos podem se comunicar, acabam sendo os melhores do filme.

Ainda assim, é produto embalsamado por um desejo mais forte de acarinhar o espectador, torná-lo um ser humano melhor pela oportunidade de se apiedar dos personagens. Os clichês de filme de arte também aparecem, como a narrativa embaralhada, que enfraquece o encontro do marido com a esposa de um outro interno. Como o tema é nobre, não podemos colocar o filme em crise impunemente. Mas Longe Dela, apesar de conseguir se livrar da péssima impressão inicial, e de ter alguns momentos bonitos, não se sustenta tão bem como drama, nem como lição de vida.

Sérgio Alpendre

 

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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