Cinema - Cultura - Comportamento
(Inglaterra, EUA, 2006) De Grant Gee. Daylight. Projeção: 1.85:1 96 min.
Impulsionado pela estréia de Control, filme que dramatiza a vida de Ian Curtis com uma boa dose de obviedade, chega agora aos cinemas o anterior Joy Division, produto bem mais sóbrio e feliz, mas também destinado aos viúvos da banda inglesa.
O documentário dirigido por Grant Gee tem pelo menos um mérito. Deixa claro que o sucesso dos caras deve-se, em maior medida, às sonoridades da guitarra de Bernard Summer e do baixo de Peter Hook. São eles os homens por trás do som do Joy Division, mas quem leva a fama é o cara que está na frente do palco fazendo micagens, suicida-se ainda jovem, e possuia, sim, uma voz que pode ser considerada um diferencial.
As declarações de Hook e Summer, pelo menos, são muito mais esclarecedoras da importância do jeitão bonachão do primeiro e da timidez do segundo do que aquelas cenas que os pintavam como idiotas no filme de Anton Corbijn. Além disso, sugere que a mudança de nome para New Order se deu apenas para respeitar a imagem do colega morto, ao contrário do que muitos dizem, que foi para testar novas sonoridades.
Porque é fácil perceber, ouvindo os discos das duas bandas em ordem cronológica, que há muito mais diferença entre os compactos da fase Warsaw e Unknown Pleasures, e deste para Closer (último disco do Joy Division), do que de Closer para Monument, o primeiro disco do New Order. Um espectador atento percebe essas diferenças também nas entrelinhas das imagens acadêmicas de Gee.
Durante a maior parte do documentário acompanhamos entrevistas com os membros da banda, alguns músicos influenciados por eles, e empresários do ramo, entre eles Tony Wilson, fundador da gravadora Factory, importante foz para o manancial produzido pela cena de Manchester.
Falando na cidade cinzenta, cuja maior contribuição para o mundo ainda é a música genial do Van der Graaf Generator, ela aparece no início e no fim, como que destacando que som tão lúgubre e tenebroso só poderia ter saído de uma cidade horrorosa como ela.
Acadêmico, pois sim, mas nunca desinteressante, o filme serve também como bom retrato de uma época de muita renovação na música pop - o punk, o pós-punk e a new wave estavam aos poucos sepultando de vez o rock progressivo e a disco music. Mas Joy Division se desenrola tão discretamente, que talvez seja necessária uma leitura prévia para que o público sinta que captou todas as nuances que Grant Gee faz questão de deixar escondidas.
Sérgio Alpendre
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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