Fim dos Tempos

THE HAPPENING. (EUA, 2008) De M. Night Shyamalan. Com Mark Wahlberg, Zooey Deschanel, John Leguizamo. Fox. Projeção: 1.85:1 91 min.



Foi com o seu filme anterior A Dama na Água que a obra de M.Night Shyamalan chegou a um ponto que fatalmente teria de ser de ruptura. Obra em que o cineasta indiano empolou praticamente todas as vertentes que constituíam o centro de todos os seus filmes precedentes pós O Sexto Sentido, tornando o que antes estava singularmente misterioso e em surdina demasiado óbvio, redondo e cheio de uma metafísica/narrativa que incomodava.

Fim dos Tempos , na sua aparente simplicidade narrativa e no seu despojamento formal, surgiu então como hipótese, não só de relançamento, mas sim de regresso aprimorado a uma essencialidade formal e a uma predisposição fabulista que o desmarcou do resto do cinema americano. Nem Spielberg, muito menos Lucas, diga o que disser o próprio autor.

È a história de um homem e da sua família (em torno o resto do mundo) que face a uma catástrofe incompreensível e que obviamente os ultrapassa, correm, América fora, rumo a uma compreensão e a um regresso à normalidade.

Postas as coisas nestes termos seriamos levados a pensar que se trata de um parente direto de Sinais, o filme em que Mel Gibson, a filha, o irmão e o resto da população se escondem de uma ameaça que chega, literalmente, de um outro mundo.

Mas, surpreendentemente ou não, Fim dos Tempos rima sobretudo com aquela que é a obra maior de Shyamalan até à data: Corpo Fechado.

Nesse filme, onde num extremo tínhamos o homem que nunca quebrava (Bruce Willis), e no exato oposto a personagem de cristal que se estilhaçava ao mínimo toque (Samuel L. Jackson), urdia-se, num inteligentíssimo mergulho pelo mundo dos heróis e dos quadrinhos, a teia sobre todos os reversos, logo toda a fatalidade de um mundo irremediavelmente dialético e desencantado – como questionou João Bénard da Costa a propósito desse filme: “Night Shyamalan será o primeiro cineasta a falar-nos de um mundo sem morte, ou é o ultimo a usar o cinema como elixir da longa vida?”

Corpo Fechado foi o filme da confirmação de um cineasta, agora como no princípio, Fim dos Tempos só nos fala de uma e da mesma questão: se aquele grupo em que Elliot Moore (Mark Wahlberg em portentosa contenção) descobre que quantos menos ficarem juntos melhor, e se possível cada um por si, a lógica e o sentido da proposta é a mais humana e o mais terrível (para lá do simplismo dos que viram ecologia e parábolas ao 11 de Setembro): a crua impossibilidade do puro amor num mundo que já chegou a um estado outro.

Tanto mais corajosa proposição que a revolta não dá a mínima cedência, seja sobre a cruzada apaixonada de Julian (John Leguizamo), seja sobre a rebelde inocência das crianças de Wahlbergh.

Numa só sequência tudo o que importa no seu cinema, aquela que começa com a visão de uma comunidade que se enforcou, cerra-se no espaço concentracionário do interior do carro e termina no suicídio em elipse da personagem de Leguizamo.

Entre o início e o fim toda uma ética anti-espectáculo, em que no mundo dentro do mundo que representa o carro, encontramos a duração cinematográfica que de uma só vez respeita o homem e os mistérios, centraliza a fé e discorre o inexplicável. O plano final contra a árvore é todo o contrário do travelling de Kapo, ou seja: o oposto da moral de Pontecorvo, o oposto do show-off, o distanciamento filial do eixo Lucas-Spielberg.

Significante para o resto do filme e revelador do caso Shyamalan em todo o cinema americano.

Já ninguém trata assim o tempo do filme, e no caso também o tempo da natureza, como o faz Shyamalan: é indiscutível, ninguém capta o que Shy capta com tão poucos planos, ninguém sustém estaticamente a câmara o tempo que o indiano sustém, ninguém trabalha assim o tempo dramaturgicamente e num enlevo perfeitamente ajustado ao fundo dos mistérios e das crenças como o faz Shyamalan no cinema americano.

Onde quero chegar? Ao vento nas árvores, nas ervas e nos céus e a uma ideia de que estamos mais para o lado de Griffith, de Dovzhenko ou de Sjöström do que o convencionado, ou seja, sem qualquer espécie de "visionarismos" grandiloqüentes associada ao gênero e a uma heritage.

Filme que assombrosamente começa nas nuvens, desce para baixo uma hora e meia e volta para os altos.

O final antes dos dois planos finais do eterno retorno ficam como a utopia da possibilidade de amar pacificamente. Assim, o verdadeiro final sobre o qual irrompem os créditos como a impossibilidade real.

Este modo de discurso e de fazer paga-se caro, sobretudo no contexto em que se insere, portanto nada mais lógico e justificado, aconteça o que acontecer, que o desinteresse critico e publico do filme no seu país de produção.

José Oliveira
 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

Para comprar os números antigos da versão impressa, clique aqui.