Festival Internacional de Cinema Ambiental de Goias


Semidouro, de Cris Azzi

Por Liciane Mamede

O Festival Internacional de Cinema Ambiental de Goiás (FICA) entrou em sua décima edição já estabelecido dentro do calendário de festivais brasileiros. Apesar de seu recorte muito específico (supostamente, apenas obras audiovisuais que, de alguma forma, abordam questões relativas ao meio-ambiente têm espaço em sua mostra competitiva), ele vem conseguindo chamar cada vez mais atenção da imprensa e de inúmeros realizadores não só pelos filmes que exibe, mas também pelas riquíssimas atividades que promove. Este ano, por exemplo, aconteceram, encontros, debates e oficinas práticas e teóricas com renomadas figuras, entre elas: o crítico Inácio Araújo, o professor de cinema da Universidade de São Paulo, Rubens Machado Jr., e o fotógrafo cinematográfico Alziro Barbosa, entre muitos outros. O juri da competição oficial não estava menos estridente. Contou com nomes como o de Philippe Dubois, professor da Sorbonne; Evaldo Mocarzel, cineasta-documentarista; João Batista de Andrade, também cineasta e secretário da cultura do estado de São Paulo, entre outros.

Eu cheguei ao festival apenas na sexta, um dia antes da premiação ocorrer - o evento acabaria apenas no domingo. De Goiânia até Goiás foram duas horas de viagem na van do festival. Cheguei a tempo de assistir a um dos médias-metragens em competição, o documentário suiço A Lenda da Terra Dourada, de Stéphane Brasey e ainda à última sessão com filmes da mostra competitiva. Nela, foram exibidos o média-metragem brasileiro Sumidouro, de Cris Azzi e um discoveriano média italiano chamado Caça ao Vulcão, de Tulio Barnabei, além dos curtas-metragens Subpapéis, documentário de Luiz Eduardo Jorge, A alegria do macaco, o espirituoso filme de Amir Admoni e a graciosa animação Pajerama, de Leonardo Cadaval. As sessões, que aconteciam simultaneamente em dois locais diferentes, estavam sempre bastante cheias.

Apesar do grande evento que o FICA de fato é, chamou-me a atenção o pouco número de opções cinematográficas que o festival dá aos seus visitantes. Na sexta, vi apenas uma sessão, à noite. No sábado, vi filmes de manhã, teria a opção de ver Quilombo, do Cacá Diegues, à tarde e então apenas mais uma sessão à noite (composta por filmes que eu já havia assistido em minha breve passagem). Vale dizer que, nesta sessão da noite, foi exibido o raríssimo curta-metragem Liberdade de Imprensa, dirigido por João Batista de Andrade, precedido por uma bela fala de Jean Claude Bernardet, já que Batista já havia deixado Goiás naquele momento. O filme foi exibido em DVD (assim como todos os outros que vi no festival).  

Vale dizer que a cidade de Goiás, antiga capital do estado e cidade natal de Cora Coralina, foi reconhecida pela UNESCO como patrimonio histórico e cultural da humanidade em 2001. O lugar é realmente uma graça e impressionante logo num primeiro olhar. Suas ruas são de pedras, as fachadas das casas, que lembram um pouco as famosas fachadas de Ouro Preto, são remanescentes de uma época em que o ouro reinou na região. Independentemente do festival, o local parece ter potencial para atrair turistas. Nada porém, pode ser comparado a essa época do ano. As suas estreitas ruas, os locais onde o festival acontece e, claro, os bares da cidade ficam cheios de pessoas, não raramente estrangeiros.

A premiação aconteceu sábado, penúltimo dia do festival, logo de manhã.Sumidouro ficou com grande prêmio de destaque do FICA; Subpapéis levou o troféu de melhor produção goiana, juntamente com Benzeduras, de Adriana Rodrigues . Além desses, o prêmio de melhor longa-metragem foi dividido entre Benzeduras e Delta, o jogo sujo do petróleo, do grego Yorgos Avgeropoulos. O prêmio de melhor curta-metragem acabou indo para Zona de Diluição Inicial, de Antoine Boutet. Vale mencionar que os prêmios concedidos aos vencedores deste festival são realmente pomposos. O melhor curta-metragem, por exemplo, leva R$ 25 mil - prêmio como poucos. Dois destaques regionais, Subpapéis e Benzeduras, levaram R$ 40 mil cada um. O que não deixa de ser justo, já que o festival acontece em Goiás e, não o bastante, o público goiano que freqüenta o evento ainda tem poucas oportunidades de ver sua região representada nas telas. Ironicamente, de forma geral, a maior parte dos prêmios foram para produções estrangeiras.

Esteve em cartaz também, durante o 10o. Festival de Cinema e Video Ambiental, uma pequena mostra Carlos Diegues. Foram exibidos, O maior amor do mundo, Deus é Brasileiro, Quilombo e Orfeu. Apesar de estes não serem o que de melhor se poderia selecionar na cinematografia do cineasta, não deixa de ser um mérito trazer a Goiás alguns filmes que não necessariamente estavam relacionados à temática ambiental. Goiás conta apenas com uma sala de cinema para seus aproximadamente 26 mil habitantes, dificilmente fora desta época do ano, o cinema é um evento na região.

 Aos filmes

No domingo, último dia do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, foram exibidos, pela manhã, dois dos longas-metragens premiados na cerimônia de encerramento que ocorrera no dia anterior: Sumidouro, de Cris Azzi e Delta, o negócio sujo do petróleo, de Yorgos Avgeropoulos, que dividiram o prêmio de melhor longa-metragem do festival.

Quem viu Still Life e Dong, de Jia Zhang-ke, vai reconhecer algo de familiar na temática abordada em Semidouro. O documentário de Cris Azzi fala da retirada de algumas famílias de uma região do vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, para a construção de uma represa. Serão cinco mil pessoas desenraizadas a partir do momento que a água começar a inundar a área. Tanto nos filmes de Zhang-ke quanto no de Azzi, os personagens (reais ou não) mostrados na tela estão à espera de seu destino, ainda desconhecido, por mais que eles já saibam para onde vão. Os mais velhos são aqueles que mais sofrem, parecem ter uma compreensão mais trágica da situação que os aflige. Dona Luiza mostra à câmera o cemitério árido onde estão enterrados seus pais e avós. Canta e dança para eles, como se estivesse fazendo um último agrado. Dona Maria parece ser a mais inconformada com a imposição da mudança. Uma vez já em sua nova casa, não dá sinais de que quer se adaptar. Agora, o lugar onde viveu sua infância, o lugar que outrora associava aos seus familiares e a sua vida juventude não existe mais, a não ser em sua memória. A partir do momento que a água inundar tudo, haverá uma desmaterialização das vidas dessas pessoas. Seu Pedro afirma que não conseguirá viver num chapadão depois de ter vivido num buraco sua vida inteira; morre pouco tempo depois de se mudar e é enterrado exatamente no lugar ao qual não se acostumara. Ficará para sempre num lar incômodo, que para ele permaneceu desconhecido.  

O jovem casal que espera uma filha parece ser a contraposição à face trágica da situação; têm esperanças de que podem reconstruir suas vidas em outro lugar. Viviane, o pequeno bebê, já nasce no novo lar. Ela nunca conhecerá o lugar onde os pais nasceram - não pelo menos da forma como ele um dia foi.

Algumas cartelas dão alguns dados objetivos e frios sobre a construção da usina hidrelétrica. Por trás daquelas histórias, há uma sociedade que não pode pensar em parar de crescer, que precisa de toda energia que puder tirar daquele e de qualquer outro lugar. Seria esse, então, o contrassenso da modernidade. As técnicas e as necessidades evoluem tão rápido que não podem dar tempo ou espaço a qualquer forma sensível de raciocínio. Não existe mais valores morais que dêem conta da rapidez das necessidades do consumo - embora, as benéficies desse consumo não tenha exatamente chegado às pessoas mostradas no filme.

O documentário de Cris Azzi, porém, assume partido das pessoas que retrata; dá o devido tempo para que os espectadores as conheçam e entrem em suas vida. O filme parece ter consciência de que é preciso tempo para sairmos da lógica em que vivemos imersos quase que durante parte integral de nossas vidas urbanas. Não à toa, tempo é o que menos nos é dado quando estamos dentro de nossas rotinas. É possível conseguir garimpar esse tempo dentro de nossas agendas quando lemos um livro, quando vamos ao cinema, não raro quando ficamos à toa (o problema é que quase nunca ficamos). É exatamente esse tempo que Azzi, com seu Sumidouro, nos convida a ter, como se afirmasse que temos direito àquilo. Temos o direito de ter a possibilidade de criar valores diferentes daqueles em que vivemos submersos. É exatamente por ter a possibilidade de nos transportar a uma outra realidade e a uma outra temporalidade que um filme pode ser tão libertador.

Delta, o negócio sujo do petróleo

O grego Yorgos Avgeropoulos foi procurar material para o documentário Delta, o negócio sujo do petróleo na Nigéria, muito longe de sua terra natal. A Shell, indústria norte-americana, dominou, durante muito tempo, os negócios relacionados ao petróleo neste país. A empresa foi inclusive - e esse é o mote do filme -, responsável pela poluição do delta do rio Niger, uma região imensa de encontro de águas, o que afetou irreversivelmente o meio-ambiente e a vida da população que estava estabelecida no local. Durante todo esse tempo, o governo nigeriano foi complacente com os negócios da empresa norte-americana, já que eles movimentavam milhões de dólares por ano. Porém, como já podíamos adivinhar, a população miserável nunca viu a cor desse dinheiro sob a forma de benefícios.

Embora a temática abordada no filme de Avgeropoulos desperte extremo interesse do espectador (e o filme foi realmente muito aplaudido aqui no FICA, logo depois de sua exibição), o que mais chama a atenção neste documentário é sua abordagem ingênua que beira à fascinação exótica. Eu já havia tido essa impressão aqui no festival com o filme A lenda da terra dourada, filme suiço sobre um missionário francês que trabalha junto ao Movimento dos Trabalhadores sem Terras, na região norte do Brasil. Ambos os filmes dão a impressão de estar, acima de tudo, impregnados pela visão européia, um tanto boba, superficial, culpada, indignada, dos graves problemas que afligem os paises subdesenvolvidos. Em ambos os filmes os paradoxos do local que retratam são explorados de forma escancarada, de forma a não deixar dúvidas ao espectador quanto à perversidade de uns e à inocência de outros. Mas o que acontece é que nós já estamos cansados de saber quem são os culpados e quem são as vítimas; se a questão é simplesmente essa, a coisa para nós fica, inevitavelmente, um tanto monótona. Superficialmente, vemos todos os dias nos jornais os dois lados da questão: tanto a do fazendeiro que abriga em sua fazenda trabalhadores em condições degradantes de trabalho; quanto a desses trabalhadores que, através de órgãos governamentais especializados e ongs principalmente, algumas vezes conseguem vir a tona para falar de sua experiência traumática (falo de A lenda da terra dourada). Entrevistar os oprimidos e colocá-los na condição de coitadinhos é um grande desserviço que esses filmes nos fazem. Compaixão não é um sentimento que se deve banalizar.

Para completar, existe um elemento em Delta, o negócio sujo do petróleo que eu não consegui (ou preferi não conseguir) entender. Na Nigéria, o inglês é a língua oficial do país. Muito embora existam dialetos, a população domina o inglês, pois vivem num país de língua inglesa. Porém, quando as pessoas do vilarejo atingido pelo derramamento de petróleo falavam, em inglês, legendas, em inglês, apareciam. Ao contrário de quando algum representante do governo, ou mesmo de quando o diretor do documentário (cuja língua nativa não é o inglês) falavam. Eu fiquei me perguntando o porquê de o inglês do representante do governo ou do diretor do documentário não precisarem de legenda, enquanto o inglês das pessoas que moram nos vilarejos pobres precisam. Sinceramente, não consigo pensar que um nativo da lingua inglesa pudesse não entender o que esses oprimidos falavam, já que estamos nos referindo a um só idioma. Eu mesmo, que falo português, entendia. Talvez, a conclusão seja óbvia demais para ser exposta.

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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