Cinema - Cultura - Comportamento
(Lil'Beethoven)

Russell e Ron Mael estão na periferia da música pop há tanto tempo que a esta altura é fácil para um disco como Exotic Creatures of the Deep passar despercebido. O que é uma pena, já que não são muitos que têm uma carreira tão sólida quanto os Sparks. 38 anos e 21 álbuns depois, pode-se dizer que os irmãos Mael jamais gravaram nada do qual se envergonharem e seguem mostrando a mesma disposição e integridade que garante que possam embarcar em projetos como um álbum produzido por Giorgio Moroder no auge da disco (o excelente Number 1 in Heaven) ou outro apenas com regravações de algumas das suas canções mais conhecidas (o divertidíssimo Plagiarism) sem que com isso alguém questione exatamente o que os Mael estão fazendo. Então que fique claro que a falta de atenção dada a Exotic Creatures of the Deep é a perda da mídia, 2008 não deverá ter muitos álbuns tão envolventes e espertos quanto este.
As primeiras faixas, como “Good Morning” e “Strange Animal”, reforçam que os Mael seguem construindo variações sob o pop sinfônico que depuraram à perfeição em Lil’Beethoven (2002): estão lá ás mesmas melodias que conseguem ser ao mesmo tempo grudentas e imprevisíveis, as letras de sempre em que o senso de humor bem sacado vem acompanhado de uma sempre presente melancolia. Exotic Creatures of the Deep, como muitos discos dos Sparks, se assemelha a trilha sonora de um filme fictício, sintético e de uma falsa felicidade constante. Não que se trate de um disco grave, parte do encanto dos Sparks é o prazer com que os Mael se lançam sobre suas composições; poucos discos recentes transparecem de forma tão clara o quanto a banda ama o que está fazendo quanto este.
É, porém, na segunda metade que se encontram as grandes faixas do álbum, com os Sparks enfileirando pérolas de bom humor e construções pop envolventes como “(She Got Me) Pregnant” e “Lighten Up, Morrissey”. “The Director Never Yelled Cut” parece uma grande piada com a tendência da dupla de alongar suas canções até o limite com falsas conclusões e recomeços, mas é também um excelente exemplar desta mesma abordagem. “Likeable”, a última canção do disco, é ainda mais perfeita. Já “This is the Renaissance” e “Photoshop” ( em que Russell Mael, 60, canta como um adolescente desesperado “you photoshop me out of your life”) estão entre as melhores do catálogo da dupla.
Filipe Furtado
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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