Evil Urges
My Morning Jacket

(Ato Records)



 

Para o My Morning Jacket, tomar certa distância do próprio passado é uma questão de sobrevivência. Desde que se transformou em referência obrigatória para novas bandas interessadas em atualizar a sonoridade do chamado "rock clássico" dos anos 70 (como Band of Horses e, recentemente, Fleet Foxes), o quinteto de Kentucky luta para se afastar de certas marcas registradas que hoje seriam confundidas com tiques. É uma fardo até injusto - já que, desde muito cedo, a banda conseguiu definir as bases de um estilo particular. No álbum It still moves (2003), já apresentavam uma interpretação siderada e bastante atípica para o country rock de Neil Young e The Flying Burrito Brothers, filtrado pelo gosto psicodélico de fãs de Flaming Lips.

A partir de Z (2005), o grupo de Jim James trabalha no sentido de abandonar lentamente essas influências e buscar uma sonoridade calcada em rock progressivo e soul music (às vezes, soft rock). A voz de James, antes soterrada em camadas de ecos, renasce nítida em arranjos polidos que remetem a Fleetwood Mac (e por isso se aproxima do Wilco de Sky blue sky). Em entrevistas, o vocalista passou a elogiar artistas como Björk e Radiohead, e disse estar cansado do "rock convencional". Ele ouve as principais estações de rádio e, por isso, tem motivos para reclamar - mas ninguém precisa, a partir do desabafo, encarar os álbuns anteriores do My Morning Jacket como obras convencionais. Não são.

Se It still moves já deixava a impressão de um álbum nascido durante um longo período de gravações - as faixas que encerram o disco já guardavam algum parentesco com o Radiohead pós-Ok computer -, Evil urges tenta simular um percurso também imprevisível, mas não existe espontaneidade no esforço. Trata-se de uma peça pregada nos fãs, mas com planejamento cuidadoso, quase frio. Sem livrar-se totalmente do acento country (faixas como “Sec walkin”, “Two halves” e “Look at you” poderiam estar nos dois primeiros álbuns da banda), metralha todos os lados: professa fé nos Carpenters (a singela “Librarian”), compõe uma suíte de prog rock (“Touch me I´m going to scream”) e, finalmente, tenta uma gargalhada constrangida em “Highly suspicious”, um funk desencontrado em homenagem a Prince.   

Como um mix aleatório de canções do iPod de um fã de rock norte-americano setentista, Evil urges é um álbum que nos surpreende a cada faixa. Pena que as surpresas nem sempre venham para o bem da banda ou, principalmente, de quem espera dela a tão prometida maturidade. Não deixa de soar como uma aventura - mas o resultado ainda é, como em Z, um processo doloroso de tentativa e erro.

Tiago Faria

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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