Eraserhead

(EUA,1978). De David Lynch. Com Jack Nance, Charlotte Stewart. Lume. Formato de tela:1.33:1 89min.



A primeira impressão que tive, ao ver Eraserhead, era de que o filme era um estudo sobre como a paranóia afeta o espaço e define novas gradações para o cinza; hoje, ele me parece uma fantasia sobre o autismo, doença que inibe singularmente as interações da criança com o meio, colocando-a numa espécie de cápsula lunar suspensa sobre o cotidiano.

A impossibilidade de estabelecer conexões com o espaço, meio de cultura do mundo social, se estabelece em planos achatados, planos que deixam os personagens no mesmo nível dos objetos, submetidos à lógica e situação destes; no mundo congelado de Eraserhead, é a rede de objetos que se encarrega de definir os personagens, e não o contrário; portas, salas de estar, entradas e saídas, um monstro doméstico e os gestos associados à lida cotidiana com estes objetos estão afetados por uma estranha "intransitividade": a imobilidade estatuária dos corpos, a importância do gesto hierático, destacado de contextos e causas definidas- como nas crises idiossincráticas, "sem razão de ser", da família da noiva-, a repetição apática de ações e posições mergulham o filme num sonambulismo da vontade, na maré estagnada de um tempo que abdicou dos direitos à progressão.

Sobretudo na importância do gesto, do efeito isolado de um contexto psicológico, causal estabelecido- reação da mãe ao frango que sangra, choro histérico da namorada do herói-, o filme flerta com o Expressionismo. Mas aqui é mais uma citação do que uma reapropriação orgânica; o que importa a Lynch é a construção de atmosferas que privilegiem a prevalência do espaço sobre o tempo, da fixação sobre a progressão, da entropia sobre a anatropia.

O espaço autista de Eraserhead se estabelece em alguns elementos: a fixação em "objetos parciais", em planos de detalhe que inventariam os pontos onde se concentram a desintegração do personagem- e da narrativa; inclusive o monstro é um objeto, o representante limite deste processo de substituição da intimidade por gestos desconectados e da progressiva rarefação dos movimentos dos personagens, sinal de um esvaziamento interior; também a ênfase em comportamentos ritualísticos, mecânicos, repetitivos.

Na descrição de uma atmosfera sombria e sem aura, em muitos momentos o filme de Lynch lembra as animações do animador polonês Piotr Dumala, sobretudo o seu Franz Kafka. Aliás, a comparação vem a propósito, pois em Eraserhead, um pouco como nas novelas de Kafka, as cenas carecem de um eixo que possibilite a progressão dramática, tributária de uma experiência que se desenrola no tempo e que tende a uma realização - um final, feliz ou não; em todo caso, um final, um fechamento e uma plenificação.

Há um constante curto-circuito desta linearidade dramática; ao invés da sucessão que visa a uma completude narrativa, a síncope de movimentos desarticulados entre si. Segmentação temporal, estereótipo de poses e inflexões, ruptura da continuidade dramática em nome da construção de um conjunto de estratos delimitados: quadros de uma exposição.

Uma estrutura que serve muito mais à alegoria- o que parece ser a intenção manifesta aqui, como aliás nos Lynchs futuros- do que a princípios narrativos, mesmo uma narrativa simbólica. Não há símbolos, aliás, em Eraserhead; um dos horrores do filme consiste, aliás, na “literalidade”, da alucinação, na certeza de que não há “nada além” daquelas imagens; de que a imagem não pode ser resgatada/ redimida pela cadeia simbólica. Estamos condenados a ela.

Assim como, visualmente, há o gesto que se destaca do contexto- e que permite uma associação superficial do filme ao irracionalismo surrealista, ou a uma hipertrofia da performance sobre o conjunto do drama-, na estrutura do filme há esse buracos negros, isolados uns dos outros, que estampam a desintegração da personalidade num conjunto de, digamos assim, instantâneos da danação, que fotografam a impossibilidade do homem de chegar ao termo de uma vivência, e portanto de aspirar a qualquer integridade.

Lynch não faz nada além de estabelecer um princípio e radicalizar as implicações contidas nele. O homem há muito desertou deste mundo, o que vemos dele é apenas a projeção fanfarrona de um espaço demiúrgico, tornado autônomo; o homem é um monstro entre outros, gerado nesta atmosfera de culpa e entropia. Em Eraserhead, o comportamento humano é visado como se fosse uma coisa, a função apêndice e anêmica de um mundo alienígena nosso mundo habitual refletido pela coisas, colocado sob o ponto de vista delas).

À “desanimação”- ausência de anima, de alma- dos personagens, substitui-se uma artificial animação, um pouco como nos mundos petrificados de Damala ou nos bonecos “reanimados” de Svankmajer, uma encenação lúgubre cuja função é afirmar o novo ser deste homem títere, estranho à sua própria história e aos seus frutos: o monstro é meu filho ou meu senhor? , sugere o desespero mundo do personagem, que vê seu espaço e seu tempo progressivamente minados ( e finalmente tomados) pelo terror da objetificação.

Luiz Soares Junior

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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