Cinturão Vermelho

REDBELT. (EUA,2008) De David Mamet. Com Chiwetel Ejiofor, Emily Mortimer, Alice Braga, Tim Allen. Sony. Projeção:2.35:1. 99min.



Há algum tempo se operou uma mudança de registro nos filmes de David Mamet: o que antes era por vezes o cinema como playground para um outsider se divertir com suas obsessões se encaminhou de maneira austera ao essencial. Os primeiros sinais foram confusos, com O Assalto, por vezes se confundindo com um filme de assalto genérico que se levava muito a sério, mas já na altura de Spartan era visível que Mamet realizava um experimento muito particular, que se cristaliza neste Cinturão Vermelho. Os títulos são cartas de apresentação exemplares dessa proposta: Heist, Spartan, Redbelt, tão exatos que se tornam paradoxalmente abstratos. Mamet não parece disposto a facilitar a vida do espectador, não só Cinturão Vermelho mistura elementos e arquétipos que não parecem pertencer ao mesmo lugar, como o faz com o tipo de pompa e solenidade que apenas um artista com absoluta crença de que está no meio da mais pura das missões.

Mamet narra a ascese do último homem íntegro do planeta (ou assim desconfiamos). Faz isso com uma sinceridade que desarma. Propõe-se a destilar sua própria mitologia com uma entrega digna do último John Ford. Cineasta e seu protagonista se confundem com a mesma facilidade que a estética e a filosofia do filme. Mike Terry é dono de tamanha retidão moral que só mesmo a mais elaborada das trapaças de Mamet poderia testá-lo. Cinturão Vermelho se move menos como a armadilha langiana do velho Mamet e mais como uma série de provações que Terry tem que passar para se purificar. O cineasta deu sorte de contar com Chiwetel Ejiofor, um desses atores capazes de preencher a tela mesmo quando o seu cineasta arranja maneiras de limitar o que ele pode fazer. Sem uma figura de grande força no seu centro, Cinturão Vermelho correria o risco de se desmanchar num mero exercício de mitologia tolo, mas em Ejiofor, Mamet encontrou alguém capaz de vender todo o seu projeto de cinema.

E é todo mérito de Mamet que Cinturão Vermelho só possa encontrar a ascese que constrói desde o primeiro plano através da mediação de uma câmera de TV. Trata-se, afinal, de um filme informado pelos 30 anos do cineasta lidando com Hollywood tanto quanto suas experiências com jiu-jitsu (não deixa de ser um filme sobre sobreviver a Los Angeles). Faz sentido que a última provação de Terry seja se oferecer a sociedade do espetáculo, seu corpo transmutado em imagem, e no processo se purificar graças a uma recusa completa do espetáculo com o trabalho impressionante de linguagem corporal de Ejiofor, na maneira exata, que busca o essencial sem nenhum movimento desperdiçado. Nesta ascensão, Mamet alcança uma pureza que vai muito além do espetáculo. Alguns com certeza sairão das seqüências finais com a impressão de assistir a um filme que descarrilou dementemente, outros se sentirão diante de um cineasta se entregando completamente ao seu cinema. Não deixa de ser as duas coisas, e, no processo, Mamet termina por atingir o essencial que vinha buscando nos últimos anos.

Filipe Furtado
 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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