3º CineOP: não existe abismu entre Glauber e Sganzerla
A Mostra de Ouro Preto se firmou como um fórum privilegiado também para o debate sobre a História do cinema, mas os filmes recentes...


Fronteira, de Rafael Conde

Por Sérgio Alpendre

A proposta foi muito boa: debater as semelhanças e diferenças entre dois dos mais talentosos cineastas brasileiros levando seus familiares para as homenagens e seminários, abrindo espaço para lembranças e esclarecimentos. Assim, tivemos cinco dias de filmes e discursos de estudiosos e apaixonados.

Como podemos olhar para aqueles dias do meio de junho hoje, ainda sem o devido distanciamento, mas já sem o calor da empolgação? Era forte a impressão de que a revisão das obras maiores dos dois cineastas faria empalidecer qualquer filme atual da programação, e foi exatamente o que aconteceu. O que fazer? Tentar abstrair a imensa carga de informação que os filmes antigos forneciam para nos debruçar somente nas atualidades nostálgicas e decepcionantes de O Fim da Picada e Os Desafinados? Nem um nem outro. O quente, o desafiador e arriscado, era mergulhar no CineOP com o que ele tinha a nos oferecer: debates, coletivas, revisões, descobertas, decepções, caminhadas, encontros, novas amizades e todas as demais benesses inerentes a qualquer festival de cinema.

Em Ouro Preto pudemos testemunhar a consolidação de um cineasta mineiro que já tinha demonstrado certo potencial sob um longa irregular e caótico chamado Samba Canção. Falo de Rafael Conde e de seu Fronteira, obra que remete a Benilde - A Virgem Mãe, de Manoel de Oliveira, mas também a Maurice Pialat, Robert Bresson e Raul Ruiz, sem que essa conexão se dê com algum filme específico, mas com um clima litúrgico caro a esses cineastas. Com todas essas referências, é de se estranhar que o longa resista bravamente, e possa ser considerado, sem medo, o melhor exibido no 3º CineOP entre as produções contemporâneas. Fronteira peca pelo excesso de música. Suas imagens rigorosas, de uma densidade lúgubre, pediam mais silêncio, menos insegurança na hora de tentar passar as emoções, mesmo que de forma fria como o rigor exigia. Porém, não é fácil encontrarmos tanta firmeza nesse rigor. O filme inteiro se submete a uma noção cinematográfica que se arrisca o tempo todo a ser apenas mais uma aplicação da fórmula para um filme de festivais, mas sai ileso desse risco graças às composições de imagens que são revestidas de uma verdade sensível, que parece extrapolar algum desejo (se existe) de emular um certo cinema de arte. Essas imagens parecem solenes demais para serem enquadradas em qualquer fórmula, e pode-se dizer que Rafael Conde foi muito feliz na superdosagem dos ingredientes, o que não é fácil de se conseguir.

O outro filme que se aproxima desse risco com coragem impressionante é Diário de Sintra, que é justamente o outro destaque entre as produções atuais. Paula Gaitán, esposa de Glauber Rocha na época desse exílio na cidade histórica portuguesa, investiga rastros da passagem do ex-marido por lá, entrevista pessoas que viam ele na época, mostra fotos, e cria imagens impressionistas que são herdeiras imagéticas (pelo menos na pretensão) do cineasta de Terra em Transe . As cenas que Gaitán pensou para emular Glauber se assemelham mais às que Eryk "Aruac" Rocha construiu em Rocha que Voa (com o qual Diário de Sintra dialoga claramente), do que às do próprio Glauber. É outro filme que ameaça degringolar em alguns momentos, mas se mantém graciosamente emotivo e bem ritmado até o final.

Dos curtas e médias exibidos em Ouro Preto o destaque fica disparado com a nova loucura de Carlosmagno Rodrigues, Analogia do Verme, vídeo de 18 minutos de extrema liberdade criativa, com o autor mostrando o resultado de uma auto-tortura, atirando objetos na câmera, ou captando a raiva blasée de seu amigo argentino no aeroporto de Confins. Filme todo cheio de desalinhos, "brainstórmico", um rascunho criativo à maneira de um João Cesar Monteiro (que justamente chamou um de seus trabalhos - O Último Mergulho - de "filme esboço"). É co-dirigido por Cris Ventura, e só a descoberta de seus outros trabalhos poderá me dizer o quanto ela deu ordem ou intensidade à fúria criativa do diretor.

De resto, vimos algumas obras menos cotadas, desde as decepções já citadas - o quadradão e novelesco Os Desafinados e o curta alongado O Fim da Picada - até o conservadorismo decepcionante de Estafeta - Luiz Paulino dos Santos, que até tenta se libertar, mas não consegue ser mais do que um correto documento de um profissional de cinema marginalizado; passando pela negação quase total de Nossa Vida Não Cabe Num Opala ou pelos insossos médias mineiros. Mais uma Mostra a provar que os diretores mais jovens ainda têm muito o que comer para encontrar algum ponto de comparação com os mestres de outrora. Enquanto esse progresso não vem, testemunhamos suas parcas tentativas, em meio a acertos que só o tempo dirá se foram acidentais ou parte de uma construção.
 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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